Stephen King e as vozes da mente

sábado, 18 de abril de 2009

Eu não ouço vozes em minha cabeça. Não conheço pessoas que ouvem vozes em sua cabeça. No entanto, nos livros de Stephen King as pessoas constantemente ouvem as tais vozes zumbindo em sua mente. Às vezes mais de uma. Estas vozes normalmente são antagônicas ao pensamento, digamos, oficial do personagem.

Leio os livros desse cara porque muitas vezes são idéias bacanas que os motivam. Posso dizer que eles têm boas sinopses (Angústia, Jogo Perigoso e O Iluminado são bons exemplos), mas cada vez gosto menos da forma como King aborda seus temas, a facilidade com que seus personagens costumam saber tudo sobre qualquer assunto, seu narrador chatinho e detalhista.

Agora, esse lance das vozes está definitivamente afastando-me do chamado mestre do horror. Quase todos os protagonistas da literatura de King passam por momentos de solidão que trazem algum tipo de conflito psicológico que faz com que as tais vozes se manifestem, dizendo-lhes o que fazer, como fazer, ou simplesmente enchendo o saco do personagem, depreciando-o, irritando-o, dando-lhe pistas falsas.

E olhe que ele sabe escrever livros que não tragam essa papagaiada (ou, pelo menos, livros em que esse recurso não seja repetido à exaustão), vide os ótimos À Espera de Um Milagre e O Cemitério, livros em que os conflitos estão do lado de fora da mente, ou em que, pelo menos, os protagonistas, ainda que passando por fortes provações, não pareçam pessoas esquizofrênicas ou altamente perturbadas.

Tudo isso para falar sobre Janela Secreta, Secreto Jardim, uma das 4 histórias que compõem a obra Depois da Meia-Noite. Talvez você tenha visto o filme que foi baseado nesta história (acho que o nome é Janela Secreta, com Johnny Depp e o sempre fodaço John Turturro), do qual quase nada me lembro, apenas que o final é um pouco diferente do que acabei de ler no livro. Bem, aqui temos o recurso das vozes (convém pesquisar sobre ocorrência de distúrbios psíquicos no estado do Maine) usado à exaustão, especialmente na reta final. É mais um caso de texto estragado por este recurso; o que encaminhava-se para ser bem mais sutil e misterioso acabou virando uma overdose de acusações entre voz imaginária e mente.

Ainda não li tudo do King, e seus contos costumam ser bem mais enxutos e bem-resolvidos do que seus romances, mas o fato é que fica uma impressão ruim que pode acabar me afastando de vez do escritor.

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