Vicky Cristina Barcelona

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Texto do Arthur Dapieve (O Globo) sobre Vicky Cristina Barcelona, o novo filme do Woody Allen (que estou louco prá ver, mas não chega de jeito nenhum ao cinema da cidade):

O mundo das aparências
Outra tese sobre ´Vicky Cristina Barcelona´

No final de “Dirigindo no escuro” (2002), o personagem de Woody Allen recebe a notícia de que a porcaria que acabou de rodar em circunstâncias atrozes, que incluem o seu ataque de cegueira psicossomática, o namoro de sua exmulher com o magnata do estúdio e o estrelismo do diretor de fotografia chinês, foi considerada uma obra-prima na França.

Desde então, sempre que leio qualquer análise de um novo filme de Allen, me pergunto o que ele de fato achará da própria obra, submetida à feroz autocrítica judaica. Os franceses aqui estarão procurando chifre em cabeça de cavalo? Naturalmente, não pude refrear o mesmo pensamento escroto diante de “Vicky Cristina Barcelona”, em cartaz.

Na imprensa brasileira, li textos elogiosos que sugeriam ser o filme sobre o amor, sobre o sexo, sobre o hedonismo, sobre o impedimento moral, sobre a busca incessante. Levando em conta que todos devem estar certos, animei-me a compartilhar a minha interpretação de “Vicky Cristina Barcelona”. Bem, acho um filme vazio sobre aparências.

Melhor dizendo, é um filme deliberadamente vazio sobre aparências. Porque, para parafrasear algo que a personagem de Penélope Cruz diz sobre ela mesma, quando tratamos de Allen, nunca estamos falando de talento, e sim de gênio. E os gênios têm mais dúvidas que os medíocres. Allen, em particular, vive de dúvidas. Assim como a prostituta de sua última obra-prima, “Desconstruindo Harry” (1997), vivia de buracos negros, honey.

“Vicky Cristina Barcelona” não era um projeto do diretor. Nasceu de um convite de autoridades catalãs para rodar algo na cidade que, de tão importante no enredo, divide o título com as duas protagonistas. Portanto, o filme foi parcialmente financiado pela Prefeitura de Barcelona e pelo Governo da Catalunha, o que gerou controvérsias públicas sobre o uso de dinheiro idem, imagine. Tinha de haver alguma “contrapartida social”.

Suponho que o pau tenha voltado a quebrar depois que o filme ficou pronto. Vá lá que parte seja falada em castelhano, o idioma do opressor madrileno no entender dos barceloneses, e não em catalão. Afinal, o pintor Juan Antonio (interpretado por Javier Bardem) é asturiano, como está explicado na escapulida da trama a Oviedo. Todavia, que Vicky (Rebecca Hall) estude castelhano para ajudar no mestrado em identidade catalã é uma afronta inominável. Muita gente já morreu na Espanha por menos do que isso.

Digressiono? Não, desta vez não digressiono.

Consigo até imaginar o intelectual novaiorquino se fazendo de sonso frente às desavenças regionais da Espanha como forma de se vingar dos mecenas da vez. Entretanto, o ponto não é esse: “Vicky Cristina Barcelona” é evidentemente um filme de encomenda. Por isso, dá um jeito de mostrar não só uma cidade linda como uma região deslumbrante, onde se podem tanto apreciar Gaudí e Miró in loco quanto velejar e praticar mountain bike ou, quiçá, degustar excelentes vinhos.

Quando Allen começou a filmar na Inglaterra, um crítico reclamou que a Londres do excelente “Match point” (2005) era fantasiosa.

Ao que um colega americano retrucou: “E ele acha que a Nova York dos outros filmes existe?” Para o diretor, as duas cidades são paisagens afetivas nas quais se desenrolam os verdadeiros dramas. Pessoais, não coletivos.

A “Barcelona” de “Vicky Cristina”, porém, não é afetiva, mas comercial: existe em folhetos destinados a turistas, como Vicky, Cristina (Scarlett arf arf Johansson) e nós.

Quase tudo neste filme é aparência. A começar pela metrópole idílica, de cartão-postal.

O pintor talentoso, mas que roubou o estilo da ex-mulher, a quem ainda idolatra, compreensivelmente. A noivinha fiel (Vicky), mas que trai o yuppie de Wall Street com o primeiro clichê de amante latino com o qual se defronta. A artista boêmia (Cristina), mas que nem consegue criar nada nem pode beber por causa da úlcera. O fato de os três serem bonitíssimos só ressalta o quanto as aparências são importantes neste filme do diretor feioso que, muitas vezes, confiou seus epigramas a si próprio, a Diane Keaton e a Mia Farrow.

Em “Vicky Cristina Barcelona”, embora as falas tenham lá os seus momentos de brilho e graça (claro, estamos tratando de Woody Allen!), são atraídas por lugares-comuns. Aliás, como a trama inteira. Se não, vejamos: jovensamericanasvivem-aventura-amorosa-empaíslatino. Não é muito original, é? Lembra o plot de “Orquídea selvagem”... Surge então o elemento perturbador, essencial para elevar o filme acima da deliberada banalidade. Este elemento, obviamente, é Maria Elena (Penélope Cruz), que acaba de tentar o suicídio.

A ex-mulher de Juan António não é apenas uma casca bonita, e bota bonita nisso. Ela não é vazia: vive, sente, tem conteúdo e, por isso, põe o mundo de aparências dos outros na devida perspectiva. Gênio em pintura, fotografia, ninguém toca Scarlatti como Maria Elena...

Contudo, nem ela está imune aos clichês: primeiro, tem um temperamento do cão, como se esperaria de uma boa espanhola (ela também fala castelhano); depois, e mais importante, o seu gênio tem como contrapartida a infelicidade. Trata-se de uma visão muito judaicocristã, na qual Deus pune o dom para consolar os humildes. Suponho que Woody Allen em pessoa se sinta assim. Ou, talvez, viva rindo de todos nós.

Comments

3 Responses to “Vicky Cristina Barcelona”
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Borges disse...

Nah. Eu vi o filme. É do caralho.

19:25
Anônimo disse...

Vc colocou em palavras, muito bem colocadas por sinal, as sensações que tive sobre o filme.

08:01
André M disse...

Clichês em excesso...mas vale a pena.

14:07