"...pessoas que têm preguiça até de amar você"

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Após passar várias semanas distante da literatura, estou, timidamente, retornando a ela. E nesse retorno retomo a leitura de O Encontro, de Anne Enright. É dele o belíssimo trecho que cito abaixo, em que a protagonista, após contar a seu marido sobre a morte de seu (dela) irmão e sua necessidade de passar um tempo longe de casa para organizar o funeral, reflete sobre sua ausência do lar (a tradução é de José Rubens Siqueira):

Existe uma coisa maravilhosa na morte, como as coisas todas se fecham e as atitudes que você considerava vitais não são nem vagamente importantes. Seu marido pode dar comida para as crianças, pode lidar com o forno novo, pode encontrar as salsichas na geladeira afinal. E a reunião importante dele não era importante, nem um pouquinho. E alguém vai buscar as meninas na escola e levá-las de novo de manhã. Sua filha mais velha consegue lembrar do inalador e a mais nova vai levar a roupa de ginástica, e é exatamente como você desconfiava: a maior parte das coisas que você faz são besteiras, besteiras totais, a maior parte do que se faz é só resmungar e choramingar e conduzir pessoas que têm preguiça até de amar você, até disso, quanto mais de encontrar os próprios sapatos debaixo da própria cama; pessoas que viram e acusam, gritando às vezes, porque você encontrou só um pé.

Comments

3 Responses to “"...pessoas que têm preguiça até de amar você"”
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Angelica Liano disse...

Deu vontade de ler o livro!
Belo trecho! ;)

20:42
Jules Rimet disse...

O bom é que o trecho, além de belo, é verdadeiro.

16:43
Jules Rimet disse...

Feliz natal, camarada. Um 2009 de sucesso e que consigamos, enfim, tomar uma cerva juntos.

Abração

21:07