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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Bom, meus caros, este é o último post de 2008. Que todos tenham um 2009 maravilhoso, estrondoso, estupendo, espetacular, cheio de vitórias, conhecimento, amizade, bons pensamentos, amor, sexo, rock'n'roll.

Top 5 de livros

Conforme o prometido, segue aí o top 5 de leituras de 2008. Normalmente faço um top 10, mas como neste ano foram poucos livros, o top vai passar por um downsizing. Não existe uma hierarquia entre os 5 livros, ou seja, para este top 5 nenhum é melhor que o outro.

À Espera de um Milagre - Uma jóia com a assinatura de Stephen King. Todo mundo já deve ter assistido ao filme, que é muito bom, mas, confiem, o livro é ainda melhor, mais contundente, mais detalhado. Nesse ano li "apenas" 3 livros do King, mas esse valeu pelos outros 2 somados.

A Sangue Frio - "Romance de não-ficção", "reportagem romaceada", "new journalism", seja lá como se refira ao estilo desse texto, uma coisa não se pode negar: trata-se de uma obra-prima. A história dos dois ladrões que invadem uma fazenda para roubar uns trocados e matam toda uma família é contada de uma maneira que segura o leitor a laço, com todos os seus detalhes e descrições precisas que em nenhum momento tornam a coisa monótona.

As Benevolentes - "Irmãos humanos, permitam-me contar como tudo aconteceu. Não somos seus irmãos, vocês responderão, e não queremos saber. É bem verdade que se trata de uma história sombria, mas também edificante, um verdadeiro conto moral, garanto a vocês. Corre o risco de ser um pouco longa, afinal aconteceram muitas coisas, mas, se calhar de não estarem com muita pressa, com um pouco de sorte arranjarão tempo. Além do mais, isso lhes diz respeito: vocês verão efetivamente que lhes diz respeito.". Esse é o primeiro parágrafo do livro (que (control-v)zei do Sérgio Rodrigues. A tradução é de André Telles), carregado livro, complicado livro, longo (900 páginas) livro, soberbo livro. Ainda hoje, tantas décadas após o genocídio dos judeus (e de outras etnias também) por parte dos nazistas, esse passado reverbera na forma como vivemos nossas vidas; é uma história cruel, mas que precisa ser contada, e ouví-la da voz de um dos carrascos torna-a ainda mais forte.

Dylan - A Biografia - A intensa vida de Bob Dylan, contada por Howard Sounes. Uma vida cheia de genialidade, manias, problemas, música, pintura, filhos, família, literatura, amigos, guitarras, violões, amor. Um dos maiores artistas do século 20 e que continua nos brindando com o fino da música (e da literatura também) no século 21.

Moby Dick - Confesso que ao terminar a jornada do Pequod, não achei que tinha sido grande coisa. Mas aos poucos a lembrança da jornada do capitão Ahab e de seus tripulantes veio me retornando em flashes, além de todos os conhecimentos náuticos que constam no magnífico texto de Melville. De repente, vi-me querendo reler o livro (o que ainda não fiz por falta de tempo) pois percebi que ele fala sobre muito mais coisas que homens num barco, fala sobre a humanidade.

10 fotos de 2008

10 fotos bacanas que tirei em 2008:

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Marimbondo


Tirada no Saldanha da Gama, o clube onde só fui 1 vez, apesar de ter pago por 1 mês inteiro (culpa das chuvas). Macro bacana.

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Que céu! I


Que cores! O azul do céu combinado com o belo verde das palmeiras. Belíssimo.

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Tirada no CIEP de São Francisco do Itabapoana, em uma das vezes em que acompanhei Arlene em sua faculdade. Outra bela combinação de cores.

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Pés de abacaxi III


Eu nunca tinha visto um pé de abacaxi, e de repente me deparo com toda um plantação deles. Imagem com um "ritmo" interessante.

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E no meio de tudo, você


E no meio de tudo, é claro, tem que estar ela, aqui fotografada com um sorriso maravilhoso entre as cordas de proteção do pula-pula do Jardim São Benedito.

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Sorria, irmão!


Meus sorridentes (ou não) filhos, que já estão enormes, inteligentes, lindos e barulhentos. Em 2009 eles ficarão ainda melhores.

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Jan 5th - 11:55:44


Essa foto me fascinou. Foi tirada na Lagoa de Cima, num dos primeiros dias da minha câmera Sony (com a qual tirei as outras 9 fotos também).

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Gerações


Esse encontro de gerações foi um dos destaques de 2008. Que esse momento se repita muitas vezes em 2009.

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Gotas na folha


Uma folha no chão, algumas gotas de água e areia em volta. Só precisou isso para fazer essa belíssima foto.

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Bela flor II


Maravilhosa flor encontrada no Horto Municipal. 2008 foi um belo ano para fotos.

Livros lidos em 2008

Neste ano li poucos livros. Houve vários momentos ao longo dos 12 meses (agora, por exemplo) em que deixei a literatura de lado e me concentrei em outras coisas, como estudar para um concurso público que acabei não fazendo, concentrar-me no audiovisual (filmes e séries) ou em revistas.

Foram 27 livros lidos (contra 70 do ano passado), os quais listo abaixo (nome, autor e data de conclusão). Ainda hoje posto um top 5:

1 - Um drink antes da guerra - Dennis Lehane - 28/01/2008

2 - A intimação - John Grisham - 03/02/2008

3 - À espera de um milagre - Stephen King - 12/02/2008

4 - Renato Russo de A a Z - Palavras compiladas de Renato Russo - 16/02/2008

5 - Lúcia McCartney - Rubem Fonseca - 23/02/2008

6 - Os livros de Bachman - Stephen King - 15/03/2008

7 - O médico doente - Dráuzio Varela - 15/03/2008

8 - Woody Allen – Uma biografia - Eric Lax - 04/04/2008

9 - Sangue na lua - James Ellroy - 10/04/2008

10 - Dylan – A biografia - Howard Sounes - 26/04/2008

11 - Fora de órbita - Woody Allen - 12/05/2008

12 - Slam - Nick Hornby - 28/05/2008

13 - Love - A história de Lisey - Stephen King - 08/06/2008

14 - Moby Dick - Herman Melville - 25/06/2008

15 - O mago - Fernando Morais - 17/07/2008

16 - Elite da tropa - Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel - 24/07/2008

17 - A canção do mago - Hérica Marmo - 29/07/2008

18 - A sangue frio - Truman Capote - 12/08/2008

19 - Sobre Schmidt - Louis Begley - 17/08/2008

20 - Pergunte ao pó - John Fante - 20/08/2008

21 - Noturnos de Hollywood - James Ellroy - 04/09/2008

22 - As testemunhas rebeldes - Georges Simenon - 11/09/2008

23 - O vencedor está só - Paulo Coelho - 19/09/2008

24 - Educação de um bandido - Edward Bunker - 27/09/2008

25 - As benevolentes - Jonathan Litell - 22/10/2008

26 - O avesso da vida - Philip Roth - 05/11/2008

27 - O encontro - Anne Enright - 14/12/2008

Sobre As Duas Faces da Lei

Como disse o crítico da SET de outubro, o grande pecado de As Duas Faces da Lei é o fato de ser um filme comum. Robert De Niro e Al Pacino são duas lendas do cinema e o primeiro filme que de fato protagonizam juntos (já haviam participado de um mesmo filme 2 vezes: O Poderoso Chefão 2, em que não contracenaram pelo fato de seus personagens estarem em épocas diferentes; e Fogo Contra Fogo, em que dividiram uma única cena) não deveria ser sobre algo que o cinema tornou tão banal como uma historinha a respeito de um serial killer. Ainda mais da forma como foi conduzida, querendo induzir o espectador a uma grande "surpresa final", que não era muito difícil de deduzir ao longo do filme. A prova de que o filme foi mal dirigido está na patética seqüência de conforntamento final, absolutamente ridícula com os dois atores correndo um atrás do outro de uma forma idiota e sem propósito.

Infelizmente a chance de reunir esses dois ícones do cinema foi desperdiçada com um filme raso, comum, que nada tem a oferecer.

Surf na web

sábado, 27 de dezembro de 2008

Leituras aleatórias:

- (...) a maioria tem a ver com a morte do trema. Abolido em Portugal desde 1946, esse sinal diacrítico tem seus simpatizantes, mas representa o menor dos problemas que aguardam os brasileiros nessa fase de transição ortográfica. Isso porque se trata de uma regra cristalina e, sobretudo, sem exceção: cinquenta, linguiça, delinquente, equidade, sequestrador… Basta abolir os dois pontinhos horizontais de tudo (menos, claro, de vocábulos estrangeiros, que estão sujeitos a outras regras) que não há como errar. (O trema vai-se tranquilamente, em que Sérgio Rodrigues fala sobre a nova reforma ortográfica).

- Dito isso, eis o que um literato com sérias restrições orçamentárias (que é o meu caso e imagino que seja o caso de muita gente por aí) deve fazer: pesquisar bastante e, mais que isso, acompanhar as promoções ― mas monitorar mesmo ―, principalmente nas lojas eletrônicas. (O guia do consumidor de livros, em que Rafael Rodrigues dá dicas para pessoas que, como eu, têm compulsão em gastar/investir dinheiro com/em livros).

- De um lado, os democratas defendem um plano de empréstimo calculado em US$ 25 bilhões para as montadoras sediadas em Detroit, de outro, o pacote sofre a oposição de parlamentares republicanos. Agora, pergunto a todos: como empresas focadas no lucro e nascidas no berço do capitalismo, querem dividir os prejuízos com a sociedade? Vejo um enorme perigo do governo perpetuar esse modelo que “estatiza” a ineficiência. (Em O capitalismo americano já não é mais o mesmo, Julio Sergio, via blog da HSM, faz uma pequena análise sobre o modo como o governo americano vem lidando com a crise financeira).

- Quando você desenvolve o hábito de investigar seus próprios pensamentos, aos poucos percebe que eles são muito impermanentes e engraçados. Você está muito mal, de repente um cheiro muda tudo. O que era divertido ontem pode soar chato hoje. Às vezes nem mesmo sabemos como chegamos a determinado assunto. (Em Como lidar com a agitação mental, Eduardo Fernandes tenta ajudar quem, como eu, tem pensamentos que atropleam outros pensamentos, que por sua vez são originados por uma cadeia de 10 pensamentos anteriores.)

"Mas quem não tem abc não pode entender HIV"

Na esperança de que o Brasil dê uma melhorada no ano que está prestes a começar, vai aqui uma letra magnífica dos Paralamas do Sucesso, falando sobre essa dualidade miséria/riqueza que vemos todos os dias aqui neste país.

O RIO SEVERINO
Letra: Herbert Vianna

Um tísico à míngua espera a tarde inteira
Pela assistência que não vem
Mas vem de tudo n`água suja, escura e espessa deste
Rio Severino, morte e vida vêm
Mas quem não tem abc não pode entender HIV
Nem cobrir, evitar ou ferver
O rio é um rosário cujas contas são cidades
À espera de um Deus que dê
Quem possa lhes dizer

O que é que você tem
O que é que eu posso te dizer
Me diz, o que é que você tem
O que é que você tem
O que é que você tem
A quem se pode recorrer
Me diz o que é que você tem

É muita gente ingrata reclamando de barriga d`água cheia
São maus cidadãos
É essa gente analfabeta interessada em denegrir
A boa imagem da nossa nação
És tu Brasil, ó pátria amada, idolatrada
Por quem tem acesso fácil a todos os teus bens
Enquanto o resto se agarra no rosário, e sofre e reza
À espera de um Deus que não vem

"...pessoas que têm preguiça até de amar você"

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Após passar várias semanas distante da literatura, estou, timidamente, retornando a ela. E nesse retorno retomo a leitura de O Encontro, de Anne Enright. É dele o belíssimo trecho que cito abaixo, em que a protagonista, após contar a seu marido sobre a morte de seu (dela) irmão e sua necessidade de passar um tempo longe de casa para organizar o funeral, reflete sobre sua ausência do lar (a tradução é de José Rubens Siqueira):

Existe uma coisa maravilhosa na morte, como as coisas todas se fecham e as atitudes que você considerava vitais não são nem vagamente importantes. Seu marido pode dar comida para as crianças, pode lidar com o forno novo, pode encontrar as salsichas na geladeira afinal. E a reunião importante dele não era importante, nem um pouquinho. E alguém vai buscar as meninas na escola e levá-las de novo de manhã. Sua filha mais velha consegue lembrar do inalador e a mais nova vai levar a roupa de ginástica, e é exatamente como você desconfiava: a maior parte das coisas que você faz são besteiras, besteiras totais, a maior parte do que se faz é só resmungar e choramingar e conduzir pessoas que têm preguiça até de amar você, até disso, quanto mais de encontrar os próprios sapatos debaixo da própria cama; pessoas que viram e acusam, gritando às vezes, porque você encontrou só um pé.

Vergonha na cara

domingo, 7 de dezembro de 2008

Bem, é isso. Estamos, nós vascaínos, rebaixados à segunda divisão do campeonato brasileiro. Não há muito o que dizer, apenas lembrar que antes que se culpe essa ou aquela diretoria, os maiores culpados são aqueles que entraram em campo e os treinadores que por lá passaram. Organização, estrutura, boas contratações são fatores importantes, mas para quem quer fazer boas campanhas. Àqueles que querem simplesmente não ficar entre os 4 últimos de um total de 20 competidoes cabe apenas treinar com vontade, não dar vexames em casa e conquistar uns poucos empatezinhos fora (e 2 ou 3 vitoriazinhas talvez). Com uma vitória e um empate a mais o Vasco ainda estaria na primeira divisão (a vitória poderia ter sido conquistada hoje, o empate poderia ter sido em qualquer dos vexames em nosso estádio), mas o fato é que o futuro do pretérito não pode ser aplicado nesse caso.

Disputemos, então, a série B, e implantemos uma mentalidade de vergonha na cara e respeito por esse clube.

The King Of Kong

sábado, 6 de dezembro de 2008

E você aí achando que ninguém se interessa mais por nenhum jogo que seja anterior ao Playstation 2, hein! O documentário The King Of Kong apresenta a história de Steve Wiebe, homem comum, professor de ciências, casado, pai de 2, que ousou desafiar um recorde que já durava mais de 20 anos: o de pontos em Donkey Kong. Sim, Donkey Kong!

Ao mesmo tempo em que testemunhamos a tentativa de Steve de conseguir a tal façanha, somos, também, apresentados a toda uma estrutura que valida esses tais recordes, representada pela Twin Galaxies e seu fundador e figura-chave Walter Day. Além disso, temos a chance única de presenciar locais especializados nesses jogos antigos, e um pessoal (com uma enorme cara de nerds) devotado a esses jogos.

Apesar do recorde (que, como vocês podem adivinhar, cai algumas vezes durante o filme) ser antigo, seu detentor, Billy Mitchell, continua na ativa, tendo construído toda uma vida em torno desse recorde e da aura de ser o melhor do mundo no jogo. A grande questão da película é um possível combate mano-a-mano entre Steve e Billy.

O final é meio anticlimático, mas vale a pena conhecer esse mundo que eu nem imaginava que existia (mas, bem, que mundo não existe dentro dos Estados Unidos?).

Tiradas do jornal

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A primeira é uma notinha que saiu na coluna do Ancelmo Góis no Globo de hoje. A segunda é uma imagem publicada no caderno Rio do mesmo jornal. Ambas mostram o mundo cão em que vivemos, em que espertos muitas vezes se dão bem, mas nem sempre:



Vicky Cristina Barcelona

Texto do Arthur Dapieve (O Globo) sobre Vicky Cristina Barcelona, o novo filme do Woody Allen (que estou louco prá ver, mas não chega de jeito nenhum ao cinema da cidade):

O mundo das aparências
Outra tese sobre ´Vicky Cristina Barcelona´

No final de “Dirigindo no escuro” (2002), o personagem de Woody Allen recebe a notícia de que a porcaria que acabou de rodar em circunstâncias atrozes, que incluem o seu ataque de cegueira psicossomática, o namoro de sua exmulher com o magnata do estúdio e o estrelismo do diretor de fotografia chinês, foi considerada uma obra-prima na França.

Desde então, sempre que leio qualquer análise de um novo filme de Allen, me pergunto o que ele de fato achará da própria obra, submetida à feroz autocrítica judaica. Os franceses aqui estarão procurando chifre em cabeça de cavalo? Naturalmente, não pude refrear o mesmo pensamento escroto diante de “Vicky Cristina Barcelona”, em cartaz.

Na imprensa brasileira, li textos elogiosos que sugeriam ser o filme sobre o amor, sobre o sexo, sobre o hedonismo, sobre o impedimento moral, sobre a busca incessante. Levando em conta que todos devem estar certos, animei-me a compartilhar a minha interpretação de “Vicky Cristina Barcelona”. Bem, acho um filme vazio sobre aparências.

Melhor dizendo, é um filme deliberadamente vazio sobre aparências. Porque, para parafrasear algo que a personagem de Penélope Cruz diz sobre ela mesma, quando tratamos de Allen, nunca estamos falando de talento, e sim de gênio. E os gênios têm mais dúvidas que os medíocres. Allen, em particular, vive de dúvidas. Assim como a prostituta de sua última obra-prima, “Desconstruindo Harry” (1997), vivia de buracos negros, honey.

“Vicky Cristina Barcelona” não era um projeto do diretor. Nasceu de um convite de autoridades catalãs para rodar algo na cidade que, de tão importante no enredo, divide o título com as duas protagonistas. Portanto, o filme foi parcialmente financiado pela Prefeitura de Barcelona e pelo Governo da Catalunha, o que gerou controvérsias públicas sobre o uso de dinheiro idem, imagine. Tinha de haver alguma “contrapartida social”.

Suponho que o pau tenha voltado a quebrar depois que o filme ficou pronto. Vá lá que parte seja falada em castelhano, o idioma do opressor madrileno no entender dos barceloneses, e não em catalão. Afinal, o pintor Juan Antonio (interpretado por Javier Bardem) é asturiano, como está explicado na escapulida da trama a Oviedo. Todavia, que Vicky (Rebecca Hall) estude castelhano para ajudar no mestrado em identidade catalã é uma afronta inominável. Muita gente já morreu na Espanha por menos do que isso.

Digressiono? Não, desta vez não digressiono.

Consigo até imaginar o intelectual novaiorquino se fazendo de sonso frente às desavenças regionais da Espanha como forma de se vingar dos mecenas da vez. Entretanto, o ponto não é esse: “Vicky Cristina Barcelona” é evidentemente um filme de encomenda. Por isso, dá um jeito de mostrar não só uma cidade linda como uma região deslumbrante, onde se podem tanto apreciar Gaudí e Miró in loco quanto velejar e praticar mountain bike ou, quiçá, degustar excelentes vinhos.

Quando Allen começou a filmar na Inglaterra, um crítico reclamou que a Londres do excelente “Match point” (2005) era fantasiosa.

Ao que um colega americano retrucou: “E ele acha que a Nova York dos outros filmes existe?” Para o diretor, as duas cidades são paisagens afetivas nas quais se desenrolam os verdadeiros dramas. Pessoais, não coletivos.

A “Barcelona” de “Vicky Cristina”, porém, não é afetiva, mas comercial: existe em folhetos destinados a turistas, como Vicky, Cristina (Scarlett arf arf Johansson) e nós.

Quase tudo neste filme é aparência. A começar pela metrópole idílica, de cartão-postal.

O pintor talentoso, mas que roubou o estilo da ex-mulher, a quem ainda idolatra, compreensivelmente. A noivinha fiel (Vicky), mas que trai o yuppie de Wall Street com o primeiro clichê de amante latino com o qual se defronta. A artista boêmia (Cristina), mas que nem consegue criar nada nem pode beber por causa da úlcera. O fato de os três serem bonitíssimos só ressalta o quanto as aparências são importantes neste filme do diretor feioso que, muitas vezes, confiou seus epigramas a si próprio, a Diane Keaton e a Mia Farrow.

Em “Vicky Cristina Barcelona”, embora as falas tenham lá os seus momentos de brilho e graça (claro, estamos tratando de Woody Allen!), são atraídas por lugares-comuns. Aliás, como a trama inteira. Se não, vejamos: jovensamericanasvivem-aventura-amorosa-empaíslatino. Não é muito original, é? Lembra o plot de “Orquídea selvagem”... Surge então o elemento perturbador, essencial para elevar o filme acima da deliberada banalidade. Este elemento, obviamente, é Maria Elena (Penélope Cruz), que acaba de tentar o suicídio.

A ex-mulher de Juan António não é apenas uma casca bonita, e bota bonita nisso. Ela não é vazia: vive, sente, tem conteúdo e, por isso, põe o mundo de aparências dos outros na devida perspectiva. Gênio em pintura, fotografia, ninguém toca Scarlatti como Maria Elena...

Contudo, nem ela está imune aos clichês: primeiro, tem um temperamento do cão, como se esperaria de uma boa espanhola (ela também fala castelhano); depois, e mais importante, o seu gênio tem como contrapartida a infelicidade. Trata-se de uma visão muito judaicocristã, na qual Deus pune o dom para consolar os humildes. Suponho que Woody Allen em pessoa se sinta assim. Ou, talvez, viva rindo de todos nós.