Infartos em parapeitos

sábado, 30 de agosto de 2008

Meu primeiro contato com o documentário que citei no post anterior foi com uma colna do Arthur Dapieve que li há alguns anos atrás. Vou postá-la aqui embaixo:

Infartos em parapeitos
'A ponte' contorna o tabu do suicídio

Em meados dos anos 70, durante o exílio na Suécia, o jornalista Chico Nelson observou no seu conjunto habitacional de Estocolmo um comportamento que, na ocasião, julgou sui generis. Certo dia, um sueco se suicidou. Na manhã seguinte,Chico comentou casualmente com um vizinho.

A reação foi: “Fulano? Não, ele não se matou. Sofreu um ataque cardíaco, perdeu o equilíbrio e caiu.” Disse isso com tanta convicção que Chico convenceu-se de que devia estar enganado. Fulano só podia ter morrido do coração.

Passaram-se alguns dias. Outro morador pulou para a morte, agora sem a menor sombra de dúvida. Impressionado, Chico comentou o ocorrido com outro vizinho. A reação foi bastante parecida à do vizinho anterior, se não mais rocambolesca. Então, o carioca do Méier atinou que seus anfitriões suecos experimentavam um processo de denegação coletiva.

Ao terceiro suicídio naquele conjunto habitacional de Estocolmo, Chico já não comentou nada com ninguém. Só veio contar a história no Brasil, depois da Anistia.

Chico Nelson morreu há dez anos. Do coração. Mesmo. Nem Brasil nem Suécia, a despeito do que os filmes de Ingmar Bergman possam sugerir, estão entre os países com as mais altas taxas de suicídio (a Lituânia está no topo, com 42 por 100 mil habitantes ao ano). No entanto, lá como cá, as pessoas se matam com freqüência, a ponto de o nosso Ministério da Saúde ter criado, em 2006, uma estratégia de prevenção ao suicídio, batizada Amigos da Vida. E as outras pessoas, as que ficam por aqui, racionalizam infartos em parapeitos.

Saiu no Brasil em DVD, pela Imagem Filmes, um documentário que metafórica e literalmente não vira o rosto à questão. Chama-se “A ponte”. Durante todo o ano de 2004, as câmeras do diretor americano Eric Steel monitoraram a Golden Gate, entre São Francisco e o Condado de Marin, na Califórnia. Registraram parte dos 24 suicídios ali ocorridos, do salto a 67 metros de altura ao impacto nas águas geladas e cheias de correntes do Pacífico Norte. Ao menos num dos casos, o de Lisa Camilli, elas acompanharam o corpo boiando até o seu resgate pela Guarda Costeira. Três dos corpos jamais foram encontrados.

A partir de imagens fortes assim, o documentário procura testemunhas, parentes e amigos de alguns suicidas, revelando, sem sensacionalismo ou moralismo, um pouco da humanidade das pessoas que chegaram a ato tão extremo. Nesse particular, é tocante a entrevista com um dos raros saltadores que sobreviveram, Kevin Hines, de 24 anos. Ele se arrependeu tão logo se atirou ao ar, tentou cair na água da melhor maneira possível e teve duas vértebras estilhaçadas. Acha que foi salvo por Deus, na figura de uma foca.

“A ponte” inspirou-se na reportagem “Jumpers”, escrita por Tad Friend e publicada na “New Yorker” de 13 de outubro de 2003. Nela, o repórter contava como a Golden Gate tornou-se uma espécie de ímã para suicidas vindos de todas as partes dos Estados Unidos. Desde 1937, quando a bela ponte pênsil vermelha foi inaugurada, bem mais de mil pessoas saltaram dela para a morte. A contagem pública de casos foi abandonada em 1995, quando as autoridades perceberam que a aproximação de números redondos acelerava o processo.

Contudo, como relatava Friend, as autoridades até hoje recusam-se terminantemente a instalar grades de proteção ao longo das duas passarelas panorâmicas, que atravessam os 2.737 metros da Golden Gate junto com as seis pistas para automóveis. Embora tais grades pudessem deter a mortandade, alega-se que interfeririam na estética da ponte.

Portanto, continua quase convidativo usá-la como trampolim para o vazio. Há instalações desse tipo, por exemplo, no Empire State, em Nova York, e até na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Grande parte do tabu que cerca o tema tem razões religiosas. Cristianismo, judaísmo e islamismo condenam o suicídio como pecado, ofensa a Deus — a não ser quando as pessoas se matam em nome da própria fé. As implicações filosóficas do ato, o fato de os suicidas não receberem seguro de vida e as acusações implícita ou explicitamente dirigidas aos familiares dos mortos respondem por outras fatias do silêncio. Há, ainda, quem acredite que os meios de comunicação possam propagar uma epidemia de mortes voluntárias.

Por tudo isso, “A ponte” é um filme ousado. Ousado e tenso. A montagem reflete a angústia de se saber que, cedo ou tarde, algumas daquelas dezenas de milhares de californianos e turistas vão pular. Sim, mas quais? Exceto por Gene Sprague, claramente identificado (a posteriori, é claro) como breve-mais-um suicida, e cuja vida de solidão e desamor serve como um eixo ao documentário, qualquer daquelas pessoas pode vir a pular.

Entretanto, a cena capital de “A ponte” não está em nenhum dos suicídios filmados mais ou menos de perto, nome e sobrenome, rostos quase se tornando visíveis pelas lentes potentes. Está numa tomada distante, no luscofusco do anoitecer, a Golden Gate na sua inteireza de cartão-postal. Subitamente, no canto esquerdo do quadro, algo pesado cai no mar, e escutamos o barulho nas águas. Banal assim. Nesse salto, nesse gesto, tanto quanto a infelicidade presente, assusta a total falta de esperança numa felicidade futura. É isso que torna o suicídio um tema tão delicado para aqueles que apenas apreciam a paisagem.

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