Nalgum lugar

terça-feira, 15 de abril de 2008

Vejam só que engraçado: o poema de e. e. cummings, de onde tirei o verso do post anterior, é citado em Hannah e suas irmãs, filme ao qual assisti entre ontem e hoje; eu lembrei que esse mesmo poema foi tranformado em canção pelo Zeca Baleiro e fui conferir no encarte do CD (Líricas) o que ele, Zeca, falava a respeito. O que ele diz é que viu o poema no mesmo filme e não conseguiu tirá-lo da cabeça durante muito tempo, até que conseguiu um livro de cummings e teve a idéia de musicá-lo.

Aí vai o poema (a tradução é de Haroldo de Campos):

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

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