Reinstalações e literatura

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Ao longo desses 22 dias sem computador eu pensei em muitas coisas para postar aqui (umas legais outras não), mas o fato é que no momento estou desesperado instalando uma tonelada de coisas que estavam no meu falecido HD e que são fundamentais para a existência humana (pelo menos a minha): iTunes (ainda não consegui tirar as minhas 3500 músicas do meu iPod e passá-las para o novo HD - e nem sei se conseguirei), BitTorrent, Firefox, Office, eMule, Last.fm, Messenger etc.

Mas para não derixar esse blog sem assunto reproduzo abaixo post do Paulo Polzonoff Jr. sobre um de meus assuntos favoritos, a literatura. Leiam, depois eu mando minhas impressões a respeito (nesse momento o Windows está querendo reiniciar porque acabei de instalar o Internet Explorer 7).

Por que, afinal, lemos?

Há algumas semanas, comecei a ler The Road, de Cormac McCarthy. Um livro aterrorizante. Não me refiro ao medo simples, dos sustos dos romances de Stephen King; trata-se de um medo mais profundo, que inunda a alma de uma melancolia desgraçada. Eu estava contando isto para um amigo quando ele, que não é leitor, me perguntou: “Mas por que é que você fica lendo estas coisas?!”

É uma pergunta antiga. Minha mãe já me perguntava a mesma coisa quando eu era adolescente. Médicos e psicólogos também me perguntam isto. Só eu, acho, é que nunca tinha me perguntado, a sério, sobre o assunto. Afinal, por que eu insisto em ler livros que, por melhores que sejam, me deprimem?

Sim, porque a boa literatura de ficção raramente faz com que sejamos a mesma pessoa. Os grandes livros criam uma desconfortável sensação de insegurança em nossa vida. Há, aqui, vários clichês possíveis. Diz-se, por exemplo, que a boa literatura é aquela que nos tira do conforto da vida cotidiana. Há quem prefira, porém, imagens mais agressivas, como a do já folclórico “soco na boca do estômago do leitor”.

A boa literatura de ficção incomoda. Os grandes livros são aqueles dos quais saímos quase cambaleando. Sofremos. E ainda assim insistimos não só em ler tais obras como também as elogiamos e recomendamos entusiasmadamente aos nossos melhores amigos. Sou só eu que percebo que há algo de muito estranho nisto?

Pensando nesta literatura boa que nos faz sofrer, a primeira palavra que me ocorre é “masoquismo”. Lemos porque gostamos de sofrer, de apanhar, de levar “socos na boca do estômago”. Há quem diga que a literatura boa é aquela que nos confronta com a realidade. É como se nos sentíssemos culpados justamente por estarmos lendo um bom livro numa boa cama, numa boa casa, numa boa hora. A gente precisa se conectar com o que é abominável. E talvez seja por isso que lemos.

Não. Não gosto da idéia de masoquismo. Eu me lembro de minhas leituras adolescentes. Mais de uma vez contei o quanto sofri lendo livros como Só o Vento Sabe a Resposta, de J.M. Simmel, Meu Pé de Laranja Lima e Trapo. Não era, porém, um sofrimento que se encerrava em si. Gosto de pensar que era algo construtivo. A maturidade que se forjava. O sofrimento pelo sofrimento ou, pior ainda, o sofrimento que desemboca num prazer perverso é algo que nunca me moveu à leitura.

Segui lendo e sofrendo, sem saber muito ao certo para quê. E aqui já é preciso tocar em outro ponto crucial desta pergunta cheia de arestas: a busca contemporânea por uma finalidade na literatura de ficção. É comum que as pessoas digam que lêem para aprender. Me permiti, porém, uma investigação e concluí que, em quinze anos de leituras intensas, não aprendi praticamente nada de palpável com livros.

Nada?!, você me pergunta com cara de espanto. Repito: nada de palpável. Quando penso na influência que os livros tiveram em minha vida, reconheço certa frustração. Eles não em ensinaram como amar uma mulher, como fazer um bom amigo, como reparar um erro ou como matar uma galinha. Tudo bem que alguns livros me deram boas informações sobre assustos diversos, como o Dia D, a ditadura militar, o ritual do charuto ou a vida dos judeus norte-americanos do Upper West Side durante a Segunda Guerra Mundial. Nada disso, porém, pode ser considerado algo palpável.

Eu percebo que muitas pessoas ficam desapontadas com a ficção justamente porque ela não é algo que possa ser acrescentado no currículo. Ninguém, a não ser que esteja almejando uma carreira como crítico literário ou acadêmico, é louco de colocar no currículo uma lista do que já leu. Tampouco o chefe (ou o funcionário do RH) está interessado na sua mais recente leitura, seja ela Danielle Steel ou Shakespeare. É senso-comum que a leitura nada acrescenta que possa ser mensurável.

E, no entanto, aprende-se. Nada palpável. Mas algo.

Gosto muito da justificativa de um bom amigo sobre o porquê de ler. “Leio para entender o outro”, ele diz. Só há um problema nesta resposta: nem toda literatura nos dá “o outro”. Ou melhor, nem toda literatura nos dá “o outro” de uma maneira que sejamos capazes de apreendê-lo. Na verdade, a maioria dos livros nos dá um outro que não precisa ser entendido, porque é raso, plano. Só os grandes mestres nos dão a deliciosa ambigüidade do outro.

Mas aqui eu proponho: o que é que a gente faz com este entendimento do outro?

Lê-se, ainda, por motivos nada nobres. Eu costumava me enraivecer quando percebia algo muito simples e comum: há quem leia apenas para se exibir. Até que me olhei no velho e bom espelho da alma e confessei com um sorriso cheio de traquinagem: também já li muito para me exibir. Para conquistar a menina do bar de intelectuais que eu freqüentava. Ou simplesmente para que levassem minhas palavras a sério. Lê-se porque o ato de ler ainda é carregado de uma nostalgia da nobreza, como se só os escolhidos tivessem acesso aos livros. Anunciar, pois, em alto e bom som que se leu este ou aquele autor é um modo de ser aceito entre aqueles que, de algum modo, admiramos.

Outra explicação para a leitura que anda muito em voga (afinal, vivemos tempos hedonistas) é a diversão. Na maioria das vezes, a diversão serve de justificativa para a leitura de livros pop ou de qualidade duvidosa. Nunca vi um leitor sério de um bom livro dizer que é divertido. Há, neste ponto, alguns sofismas possíveis. Diz-se, por exemplo, que a exaustão a que nos levam alguns livros é uma forma de diversão. Desconfio, porém, que neste ponto a leitura se torna, novamente, masoquista. O prazer alcançado pelo sofrimento realmente é um bom coringa quando o assunto é leitura.

Mas, e quanto a mim? Levantei todas estas hipóteses para tentar responder a uma pergunta específica: por que insisto em ler livros como The Road ou Herzog, de Saul Bellow (uma leitura que, por sinal, interrompi)? São leituras desconfortáveis, que geram sofrimento e, no caso do romance de Cormac McCarthy, pesadelos terríveis. Por que, então, dedicar minhas horas livres a algo que, ao que parece, não é nada bom?!

Não tenho uma resposta clara. E isto, confesso, me incomoda um pouco. Eu gostaria de dizer que leio para sair da minha vida e entrar em outro mundo, um mundo inventado. Mas não é verdade. Há boa literatura cujo cenário é o mundo real – e, por vezes, um mundo real que é bem pior do que o nosso. Gostaria de dizer que aprendo alguma coisa lendo, mas, novamente, estaria mentindo. Ainda que eu ache que busque a tolerância ao entrar em contato com outras pessoas, isto é, com personagens que são diferentes e às vezes antípodas, é certo que nem sempre consigo transportar esta tolerância para a vida.

Quanto a ler para me exibir? Bem, eu me lembro de me apaixonar por uma menina que tinha lido os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Houve um tempo em que isso realmente fazia a diferença. Eu media as pessoas pelas leituras delas. Mas este tempo passou. E, infelizente, não foi nenhum livro que ensinou que tal julgamento ralo deveria ser abandonado.

Outras possibilidades? Vejamos. Literatura policial eu leio por todos os motivos “inferiores”: para me divertir e para fugir. Mas não é que às vezes eu descubro lá no meio alguma coisa rica? Uma frase, um personagem, uma situação e uma fala que me enchem o espírito de graça.

Eureca!

Eis uma brecha de resposta que me interessa: ler para se comunicar com algo que é inominável e quase impossível de se descrever. Não se trata de Deus nem tampouco de sincronicidade; nem é o Zeitgeist – longe disso! É algo que não se manifesta claramente e jamais pode ser utilizado para uma compreensão maior das coisas. Pelo contrário, é algo que só faz um sentido individualíssimo – e que jamais pretende escapar dos limites do indivíduo que influencia.

(Mas, ironia das ironias, só sou capaz de alcançar este embrião de resposta porque li, de algum modo, os livros que me levaram até ele; e só consigo ser compreendido por aqueles que, lendo, chegaram ao mesmo ponto).

Há um modo mais simples de explicar por que eu leio: para me tornar uma pessoa melhor. Toda a dúvida, contudo, é gerada porque não consigo compreender os mecanismos da leitura, como ela afeta (se é que afeta mesmo) o meu modo de ser. Será que ela realmente causa uma melhora? Ou sera que a idéia aqui é autocondescendente? Temo pela idéia de ler para me tornar uma pessoa melhor porque ela também soa como auto-ajuda. Bem, mas este é um daqueles momentos em que quem escreve precisa saber se retirar para que o leitor o absorva como bem quiser.

O mais curioso desta idéia de ler para ser uma pessoa melhor (e aqui vale lembrar que a definição do que é ser uma pessoa melhor varia de indivíduo para indivíduo) é que, amargamente, constato por que a leitura intensa tende a piorar as pessoas. Elas brigam por causa de livros. Se xingam. Se odeiem. Às vezes chegam até mesmo à violência física. A tolerância, no mundo da literatura, é uma quimera. Como explicar este paradoxo? Ou não seria um paradoxo, e sim apenas mais uma manifestação torta e, para mim, incompreensível do modo de atuar da leitura?

Muitas voltas, muitas possibilidades, apenas uma nesga de resposta. Não reparem: é que gosto de caminhar e divagar por estes terrenos pantanosos, comandados pelo Incognoscível.

Comments

No response to “Reinstalações e literatura”
Post a Comment | Postar comentários (Atom)