Never Ending Tour

domingo, 30 de dezembro de 2007

Já que postei estes vídeos do Bob Dylan, andei me recordando de algumas coisas que tenho sobre ele aqui na minha máquina. Vou postar um enorme artigo, que o falecido no.com.br publicou em 23/05/2001. O autor é Bill Wyman, e a tradução é de Beatriz Horta.

O mistério Dylan

Bill Wyman


O crepúsculo de Bob Dylan é iconoclasta mas, mesmo assim, crepúsculo. Com muito gosto, ele aparece em todos os shows de premiação, piscando incessantemente. Diz alguma coisa incompreensível e sai do ar outra vez. Quem der uma olhada na carreira dele nos últimos vinte anos, vai se surpreender com a perspicácia e o descaso. Num palco, ele pode fazer uma interpretação empolgante – ou indiferente.

Dylan faz 60 anos na quinta-feira, dia 24. Está triste? Patético? Poderoso? Indomável? Difícil dizer. Pode-se pensar em Dylan de diversas formas, num dia ou numa hora. A começar pelos belos versos de "A Hard Rain's A-Gonna Fall", sua primeira letra épica. Conta uma história simples: um sujeito levanta, sai, volta. 'O que você viu?' pergunta o pai dele. O cantor diz. O que você ouviu? O que vai fazer agora?

Décadas depois dessa canção, Dylan recontou a mesma história diversas vezes, com todos os tipos de balanço: é a história de "Tangled Up in Blue", seu caso de amor mais divertido e em "Isis", o mais sanguinário.

Fui, vi, voltei. Dylan – um modelo de auto-criação, como nunca se teve – com uma vida cheia de duplos, espelhos e clones: a pessoa que volta está mudada, no fundo ela é diferente, outro. O uso recorrente da história da viagem faz Dylan alimentar esse 'outro' de todas as formas. Em "Hard Rain", o cantor, poderoso e cheio de si, se transforma num profeta numa época atormentada. Quase da mesma forma, Dylan também virou uma pessoa incerta e, talvez sem querer, porta-voz de uma geração migrante e inquieta, uma geração mais ciente de si mesma como "especial" do que qualquer outra.

É importante lembrar que Dylan esteve levemente isolado de sua geração, mergulhado no rock dos anos 50 e na poesia pré-rock de Woody Guthrie. Ele um dia foi Robert Zimmerman, nascido em Hibbing, no Minessota, e ficou sem dúvida marcado por largar a casa, a família e a infância antes dos vintes anos. Em 1966, o rebatizado Bob Dylan, 25 anos, já tinha se reiventado quando milhares de jovens defenderam os direitos civis, a liberdade de expressão e a luta contra a guerra do Vietnã.

Mas ele sentiu que era preciso mudar.

Dylan viu a transformação de sua vida e da vida dos fãs antes deles e entendeu que, quando você parte, deixa para trás uma versão e que um novo personagem surge pelo caminho. A idéia ficou cantando na cabeça dele e ecoou na cabeça de uma geração. Ele leva isso ao extremo em "Hard Rain", a mais imatura das canções de viagem e, mesmo assim, a mais visionária. Escondido numa mistura de horror nuclear e ruptura social está algo mais prosaico: um adolescente sonha em ser adulto, enquanto um pai se transforma num homem comum e a criança, recém-adulta, pode falar nas coisas maravilhosas que viu, contar vantagem do que ainda vai fazer para tudo ficar certo.

Será esse o sentido do desejo do viajante por seu lar? Experimentá-lo como uma pessoa diferente, mudar o passado confrontando-o com novos conhecimentos e habilidades? Uma viagem assim é uma espécie de ódio de si mesmo, uma auto-rejeição, algo que a maioria das pessoas sente no caminho para ser adulto. A canção também tem ecos daqueles clichês americanas: a viagem para o oeste (alimentado por uma vontade de ver o que está fora de vista), encontrando um extremo, correndo até não poder ir mais a lugar algum.

A carreira de Bob Dylan – 40 anos, mais de 40 discos, centenas de canções gravadas, mais de 1.500 apresentações ao vivo – é vasta o bastante para caber tudo, do trivial ao raro. Dylan é um roqueiro, um visionário, um poeta, um estudante convincente de folk e blues, um belo compositor, um rebelde, o mais tranqüilo, o mais desligado dos astros e talvez o mais cruel. Entre outras coisas, foi ele quem primeiro rompeu o domínio das bobagens otimistas, quem disse à platéia o que ela não queria ouvir.

Dylan é o mais anti-estrela de todos os gigantes do rock, lutando e abafando a fama com uma descompromissada fúria por quase 40 anos. É também o astro mais estranho: a vida dele é mais esquisita que a de Elvis Presley. Pode ser também o melhor de todos. Ninguém escreveu canções tão agressivas, lindas, complexas, inesquecíveis: "Hard Rain" , "Chimes of Freedom", "Like a Rolling Stone", "Visions of Johanna", "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding), "Tangled Up in Blue", "Hurricane."

Sua carreira, quarenta anos ininterruptos, é enorme, contraditória e impossível de ser apreendida. Chamar de algo tão banal quanto "a viagem" não faz qualquer sentido.

Até que se leva em conta o seguinte: no início dos anos 80, após vinte anos de agito incessante e muita controvérsia, Dylan reduziu a marcha. Quase não fez shows nos Estados Unidos e, quando fez, foram aparições ao lado de bandas como The Grateful Dead ou Tom Petty and the Hertbreakers. E gastou tempo demais gravando discos dispensáveis, como "Down in the Groove" e "Knocked Out Loaded". Ficou claro que depois de vinte anos, Dylan estava baixando a bola. Não interrompeu a viagem, mas durante algum tempo ela passou para velocidade cruzeiro.

Até que, no verão de 88, ele formou um pequeno conjunto e fez uma turnê. Em quatro ou cinco meses, fez 71 shows, conforme contam seus biógrafos on line. Em 89, manteve o ritmo: fez 99 shows e, no ano seguinte, 96. Trabalhou a década toda assim – em 99, fez 116 shows.

Dos 47 anos até agora, ele passou quase a metade do tempo na estrada. Nenhum outro grande astro se apresenta com tanta freqüência e é provável que nos últimos 13 anos ele tenha feito mais shows do que quase todos os intérpretes da história da música popular americana: 13 anos viajando de uma cidade para outra, toda noite, de avião, ônibus, carro e táxis, cruzando os Estados Unidos e o mundo.
Que tipo de viagem é essa? Onde começou? Para onde vai? E onde ele estará quando terminar?


Antes de Dylan, muitos letristas criaram canções de qualidade inegável, apaixonadas, sutis, complexas, mas nunca uma tal torrente, com tal arrogância e conhecimento, tal loquacidade ilimitada, simbolismo, ambição e graça e num vertiginoso turbilhão de exploração, coragem, dissonância e sofrimento.

Claro que uma parte dessa produção era provocada pelo surrealismo da anfetamina e da maconha. Há muito papo furado, bobagem, piadas, futilidade. Muitas de suas famosas canções "de protesto" ("Masters of War", por exemplo), são bisonhas; as supostas canções de amor são mesquinhas e algumas faixas dos discos do final dos anos 60 são apenas passáveis. O hino "Rainy Day Women 12 & 35" é imperdoável, estraga "Blonde on Blonde", que poderia ser um perfeito disco de rock. Um lançamento esquecido de 1970, "Self Portrait", é um inexplicavelmente ridículo álbum duplo de capas e refugos. (Alguns anos depois, a Columbia lançou uma coleção pior ainda, "Dylan", sem autorização do próprio.) E seu primeiro disco, "Bob Dylan" é, bem, um primeiro disco.

Dito isso, a obra de Dylan entre 1962 e 77 não tem comparação. Até as músicas mais bobas pedem para serem levadas a sério e grande parte das canções são incomparáveis. Muitos discos com músicas valiosas devem ser considerados, numa avaliação criteriosa, como o que há de melhor e mais convincente no rock ("The Freewheelin1 Bob Dylan", "The Times They Are A-Changin' ", "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited", "Live 1966", "Blonde on Blonde", "The Basement Tapes", "Before the Flood", "Blood on the Tracks" e, com restrições "Planet Waves" e "Desire"). Dylan é um dos cantores de rock mais eloqüentes, sensuais e imprevisíveis. Além de um dos mais raivosos. Toca com perfeição a gaita e é um insistente e talvez menosprezado criador de melodias. E não podemos esquecer que, mesmo sem ser citado nos créditos de produção de seus discos, durante 15 anos ele supervisionou a criação do que continuam sendo os mais surpreendentes, evocativos e arrepiantes discos de base acústica.

No final da década de 50, ele surgiu na cena folk nova-iorquina e o jovem bochechudo da primeira capa de disco logo emagreceu e ficou transado. Seu estilo também começou como cantor de folk convencional e imediatamente ficou não-convencional, transcendendo o gênero. Seu segundo disco, "Freewheelin", tem, entre outras, "Blowin' in the Wind", "Don't look Twice, It's All Right" e "A Hard Rain's A-Gonna Fall." De todas elas, "Don't look Twice" é a menos importante, mas que até 99, retrabalhada e aumentada, se transformou num triste e inesquecível ponto alto de seus shows. O terceiro disco, "The Times They Are A-Changin", tem a excelente canção-título, mais "Ballad of Hollis Brown", um assustador gótico rural; " The Lonesome Death of Hattie Carroll" provavelmente sua mais certeira e convincente canção de protesto e, finalmente, "Boots of Spanish Leather", um clássico abstrato e uma das mais puras e desconcertantes canções folk da época.

"Another Side of Bob Dylan" é um disco de menos "afinidade", que contém "Chimes of Freedom" o adorável hino para "os inúmeros confusos, acusados, mal usados, estressados ou pior". Após esse disco, ele desenvolveu seus talentos e, entre março de 65 e maio de 66, lançou oito LPs ("Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e o duplo "Blonde on Blonde", sem falar de "Positively 4th Street", o mais cruel compacto a chegar à lista dos dez mais. Ele superou-se ao compor, cantar e apresentar todas elas.

"Bringing It All Back Home" começa com sua primeira canção gravada com instrumentos elétricos, "Subterranean Homesick Blues" e inclui também "Maggie's Farm", um olhar rápido e lacônico na indústria de serviços; "Mr. Tambourine Man", o maior canto de vitória da psicodelismo, ainda mais estimulante pelo arranjo acústico. E ainda: "Love Minus Zero/ No Limit", a canção de amor diferente que começa com o verso "My love she speaks like silence / Without ideals of violence" (Meu amor, ela fala em silêncio, sem pensar em violência) e "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)" que alguém uma vez disse que está para o capitalismo como "Darkness at Noon " está para o comunismo. ( A canção também contém alguns dos mais famosos versos de Dylan: "He not busy being born is busy dying" (Quem não faz força para nascer, faz na hora de morrer) "It's easy to see without looking too far / That not much is really sacred" (É fácil enxergar sem precisar olhar muito longe / Não há muita coisa realmente sagrada) e "Even the president of the United States / Sometimes must have to stand naked" (Até o presidente dos Estados Unidos / às vezes precisa ficar nu"); "Money doesn' t talk, it swears" (O dinheiro não fala, ele jura); "If my thought-dreams could be seen / They'd probabbly put my head in a guillotine" (Se meus maiores sonhos pudessem ser vistos / Eles provavelmente poriam minha cabeça numa guilhotina).

Em 65, depois que lançou esse disco, Dylan fez uma pequena turnê pela Europa, registrada no documentário "Dont (sic) Look Back". Na volta, encontrou a platéia pop dividida a respeito de "Subterranean Homesick Blues"; ao tocá-la com instrumentos elétricos no Festival Folk de Newport e em Forest Hills, em Queens, ele foi vaiado, para sua consternação.

Em meio a essa roda-viva de trabalho, ele se casou com Sara Lownds (ou Lownes, ou Lowndes) no final de 65, com quem teve quatro filhos nos cinco anos seguinte: Jesse, Anna, Samuel e Jacob. O caçula hoje se chama Jakob e faz sucesso com sua banda Wallflowers. (Por estranho que pareça, durante 30 anos os biógrafos de Dylan deram às crianças nomes e idades diferentes, além de escreverem de diversas formas o sobrenome de Sara de seu casamento anterior. E a maioria dos biógrafos não cita o verdadeiro nome dela, que parece ser Shirley Nowinsky).

O disco "Highway 61 Revisited" começa com "Like a Rolling Stone", uma bela canção. Dylan uma vez aceitou um prêmio de direitos civis num jantar grã-fino e disse, seco, para a platéia engalanada: "Meus amigos negros não usam terno". Na música "Like a Rolling Stone" ele cospe outra vez no prato onde comeu, retratando toda uma geração de jovens como uma associação beneficente de moças – e esse é apenas o primeiro verso. Nos seguintes, ele fica desagradável e o resto da canção corresponde em rock a uma daquelas cenas do seriado de tevê "The Sopranos" em que um marginal fica chutando quem já está no chão. Será que "Like a Rolling Stone" é a música mais poderosa, difícil, inesperada e insensível do rock? Tem algum outra candidata?

A canção "Highway 61 Revisited" pode ser a mais perturbadora música de Dylan, um poema de capitalismo brutal, incesto, farsa bíblica, fomento à guerra e lazer familiar, tudo numa batida que até hoje faz suas fãs youppies caírem na dança em shows.

Em "Blonde on Blonde" só a voz em si é um mostruário do genoma das emoções humanas, exceto talvez a piedade. Uma das grandes alegrias da era CD é ouvir esse conto épico sem parar, do início ao fim. Dylan se gaba, conta vantagem, suspira, ama, perde, sorri, lastima, suplica, deseja, definha e viaja – e isso só em "Pledging My Time" e "Visions of Johanna." O disco contém "Just Like a Woman", uma canção de amor tão elegante e confusa que até hoje, 35 anos depois, ninguém sabe se é insuportavelmente condescendente ou surpreendentemente adorável. Outra canção engraçada é "Stuck Inside of Mobile With the Memphis Blues Again", com um personagem feminino mais sagaz: Ruthie, que diz a ele que ela, debutante, sabe bem o que ele precisa e o que quer. O disco tem uma canção que dura um lado inteiro, na época do vinil; trata-se de uma canção de amor para Sara Dylan, "Sad Eyed Lady of the Lowlands", mais exaltada e perturbada até do que "Astral Weeks", de Van Morrison.

Dylan sofreu um acidente de moto em 66 e nunca se soube quão grave foram os ferimentos. Nos anos seguintes, ele tocou com The Band em Woodstock e lançou discos mais calmos, mais sutis -- "John Wesley Harding, "Nashville Skyline", o perplexo Self-Portrait e, finalmente, "New Morning", de título alegre e interpretação contida.

Em meados dos anos 70, ele realmente voltou. Foi o único de seus companheiros dos anos 60 a conseguir um surto de criatividade igual ao do começo da carreira. De 74 a 77, lançou "Planet Waves" uma parca mas misturada coleção de canções gravadas com The Band: "Before the Flood", um disco duplo alto, feroz e áspero, ao vivo na elogiada turnê de 72; "The Basement Tapes", uma coleção de cinco anos de gravações muito pirateadas de seu tormento no Jardim do Getsêmani em Woodstock; "Blood on the Tracks, um ciclo de românticas e perturbadoras canções épicas e "Desire", um disco de rock agitado e forte.

A seguir, ele organizou e participou da turnê Rollin Thunder, que incluía Joan Baez, Ramblin' Jack Elliott, Ronee Blakely, Roger McGuinn, Mick Ronson, T-Bone Burnett e muitos olhos velhos amigos e músicos. Mais tarde, dirigiu um filme de quatro horas baseado na turnê, chamado "Renaldo e Clara". Esta fase terminou com um incrível e peculiar show de uma hora na tevê que está imortalizado no disco ao vivo "Hard Rain". Canções que costumam ser menosprezadas, da fase pós Rolling Thunder, estão em "Street Legal" e "At Budokan", dois discos ao vivo imortalizando a fracassada tentativa de Dylan de fazer um show ao estilo de Las Vegas numa escala mundial.

O apogeu de sua carreira é, talvez, "Blood on the Tracks". Em suas raras entrevistas, Dylan fica agressivo quando perguntam se o disco retrata sua separação de Sara. De todo jeito, com 15 anos de fama para trás e o fracasso de um casamento de dez anos pela frente, é verdade que Dylan nesse disco olha o mundo através de óculos respingados de sangue. As perdas que ele canta parecem fatais, sua raiva em canções como "Idiot Wind" parece com a do rei Lear. "Blood on the Tracks" é o único disco impecável e o melhor produzido; cada uma das canções é construída de forma disciplinada, escrita e reescrita, como quase nunca são. É o seu disco mais amável e mais desanimado e parece ter finalmente encontrado um equilíbrio entre a verborragia dos anos 60 e as composições simples dos anos pós-acidente de moto.

O disco começa com "Early one morning the sun was shining. A voz de Dylan está mais calma e mais suave do que nunca foi ou nunca mais seria, cada verso, cada palavra é pronunciada e tem um sentido. Mais de 25 anos depois do lançamento, o disco oferece inesperados e emocionantes momentos. Um título como "You're a Big Girl Now'" sugere que a faixa é de uma de suas canções de amor mais condescendentes. mas acaba sendo arranjada, interpretada e cantada da forma mais delicada. Dois versos depois, Dylan canta "I'm back in the rain" e um minuto depois, num final emocionado, sussurra: "Posso mudar, eu juro", um momento inefável em sua canção mais vulnerável.

A canção "Idiot Wind" é sobre verdade, amor e ódio; "Lily, Rosemary and the Jack of Hearts" é um faroeste abstrato meticulosamente construído. A última faixa, "Buckets of Rain", é um contrapeso – há imagens que lembram chuva no disco todo. Parece inocente, até que o ouvinte presta mais atenção e escuta o som da guitarra que acompanha a letra e pára, com as cordas ressoando no cabo da guitarra, as mãos do músico silenciando. E aí percebe que o disco terminou.

Depois de "Blood on the Tracks", houve um longo declínio. O casal talvez tenha pago com o casamento os problemas mostrados nesse disco. Apesar de um pedido que parece sincero no disco "Desire" numa canção chamada "Sara", o casal se separou em 77. Ele estava com 36 anos.

Nascido judeu, se converteu ao cristianismo no final dos anos 70 e gravou dois discos cheios de devoção. Como muitos cristãos, ele ficou maçante ao tocar no tema. O disco que marca a conversão, "Slow train coming", tem produção de Mark Knopfler, líder do grupo Dire Straits, mas as canções são pueris, em geral. No disco "Saved", lançado a seguir, os famosos produtores do rithm & blues Jerry Wexler e Barry Beckett não conseguiram evitar que Dylan cantasse num tom agudo e parecesse ainda mais intolerante. Em 79, ele fez uma turnê com um grupo de gospel e se recusou a cantar qualquer música do repertório antigo, recebendo vaias da platéia. Um ano depois, estava outra vez na estrada, reduzindo os golpels e aceitando tocar algumas preciosidades antigas.

A década de 80 foi uma fase difícil: há canções bonitas, mas as bobas e ruins surgem em maior número. Os discos seguintes pareciam feitos às pressas e sem cuidado. Tinham capas feias e uma seleção aleatória, faltava produção. Muita gente gosta de "Infidels" e Dylan trabalhou outra vez com Knopfler: embora as canções sejam maduras e complexas, as melodias são muito parecidas e o disco como um todo tem ecos de seus dias excêntricos de cristão. Ele parecia particularmente tocado pela idéia de viagem espacial. "Jokerman", que é para ser a melhor faixa do disco, tem longos trechos absurdos e o que parecem ser piadas com provérbios bíblicos.

"Desire", de 76, tem um crédito engraçado: "Este disco poderia ter sido produzido por Don DeVito" mas, em meados dos anos 80, Dylan levou a piada a sério e supervisionou a produção da maior parte dos discos com ajuda de vários engenheiros de som. O resultado é bem amador, há faixas com muito eco e milhares de outros problemas irritantes.

Mas não que ele estivesse estragando grandes músicas. O disco "Empire Burlesque" (85) tem uma canção forte e bonita, "Dark Eyes". Já o disco "Knocked Out Loaded" tem um épico de 16 minutos escrito em parceria com Sam Sheppard ("Brownsville Girl") que é engraçado ouvir uma vez. (Como uma espécie de piada, Dylan incluíu essa música em "Greatest Hits, volume 3.") Outro disco descartável da época foi "Down in the Groove"(88) com Dylan empalidecido como letrista por Robert Hunter, da banda Grateful Dead. A jogada comercial mais esperta que Dylan fez na vida foi sair em turnê com os Dead em 87 e, no disco "Groove", ter Jerry Garcia e Bob Weir cantando numa faixa. ("Silvio"). Membros do Greatful Dead de sorrisos beatíficos passariam a freqüentar sempre os shows de Dylan depois da turnê "Never Ending" e, infelizmente, "Silvio" passou a ser uma das suas músicas mais tocadas ao vivo.

Na década de 90, ele continuou ao adernando, até que finalmente contratou dois produtores: Don e David Was trouxeram alguns bons profissionais de estúdio e fizeram seu primeiro disco da década, "Under the Red Sky", um desastroso resplendor. A bateria está tão alta que o ouvinte tem vontade de dar um tiro em Kenny Aronoff. "Oh Mercy" foi rearranjada Daniel Lanois, mestre de uma guitarra com sonoridade alterada eletronicamente; é irritante ouvir as canções de Dylan tão alteradas. Mas há boas faixas ("Most of the Time", "Shooting Star", ambas simples e diretas) que fazem com que essa seja a mais coerente e audível coleção de canções que Dylan lançou, desde "Desire."

Finalmente, parecendo se dar por vencido, no início dos anos 90 Dylan gravou dois discos de canções folk, "Good as I Been to You" e "World Gone Wrong". Provando como ele é imprevisível, o primeiro disco é entediante e o segundo, um documento, um passeio hipnotizante e sanguinário pela história encharcada de sangue da música folk e do blues. O disco tem também as melhores notas desde a década de 60. ("By the way, don' t be bewildered by the Never Ending Tour chatter. There was a Never Ending Tour but it ended" – Aliás, não se incomode com essa história de turnê Sem Fim. Houve uma, mas acabou.)

Em 97, ele lançou "Time Out of Mind", no qual finalmente conseguiu juntar um som de estúdio de qualidade a uma coleção intrigante de canções. O disco é muito elogiado (ganhou a pesquisa Pazz & Jop, do jornal Village Voice feita pelos críticos de rock do país) e tem uma canção de trabalho forte e original, a surpreendente "Love Sick" e uma ou duas do nível de "Oh Mercy", como "Not Dark Yet" ("Things Have Changed", canção do filme "Wonder Boys" que ganhou um Oscar no ano passado, parece uma música do disco "Time Out of Mind", mas na verdade foi gravada dois anos depois.)

De certa forma, Dylan merece ser bem mais criticado do que é. Hoje, todo mundo o adora, mas a maior parte das pessoas que falam nele ou dão Oscars e Grammys para ele, não se dá ao trabalho de olhar as muitas músicas ruins que gravou (e lançou! e vendeu à beça!) nos últimos 20 anos. Essas mesmas pessoas também não assistem aos shows dele.

E ainda assim ele é subestimado. Quando se passa alguns dias ouvindo seus discos, a cabeça fica cheia de palavras. São amantes e heróis, charlatães e idiotas, heróis e oprimidos (e alguém que um dia foi um menino de muita ambição) lutando para chamar sua atenção:

"Darkness at the break of noon"
(O escuro no cair da tarde)
"Ain't it just like the night to play tricks / When you're trying to be so quiet?"
(Esta não é uma noite para fazer brincadeiras / Quando você tenta ficar bem quieto?)
"And I'll tell it and think it and speak it and breathe it"
(E vou dizer, pensar, falar, respirar isso)
"Spanish boots of spanish leather"
(Botas espanholas de couro espanhol)
"And then Caribbean winds still blow / From Nassau to Mexico"
(O vento do Caribe ainda sopra / De Nassau ao México)
"A million faces at my feet / But all I see are dark eyes"
(Milhões de rostos aos meus pés / Mas tudo que vejo são olhos negros)
"I can't help if I'm lucky"
(Não posso fazer nada, sou sortudo)
"Her fog, her amphetamine and her pearls"
( A indefinição dela, a anfetamina e as pérolas)
"Ma, take this badge off of me"
(Mãe, tira esse distintivo de mim)
"Twas then that I knew what he had on his mind"
( Foi aí que eu vi o que ele estava pensando)
"Pistol shots ring out in a baroom night"
(Tiros de revolver soam no bar, à noite)
"Oh, Mama, can this really be the end?"
(Ah, mãe, será que esse é mesmo o fim?)
"I got blood in my eyes for you"
(Meus olhos sangram por você)
"I'm going out of my mind / With a pain that stops and starts"
(Vou ficar louco / Com uma dor que vai e volta)
"And never sat once at the head of the table"
(E nunca sentou na cabeceira da mesa)
"There's seven people dead in a South Dakota farm"
(Há sete pessoas mortas numa fazenda da Dakota do Sul)
"Yes, and only if my own true love was waitin' "
(Sim, só se meu verdadeiro amor estivesse à espera)
"Turn, turn, to the rain and the wind"
(Vire-se, vire-se para a chuva e o vento)
"Come in, she said, I'll give you / Shelter from the storm"
(Entra, disse ela, vou te proteger da tempestade)
"Stayin' up for days at the Chelsea Hotel / Writing 'Sad Eyed Lady of the Lowlands' for you"
(Passei dias no Hotel Chelsea, escrevendo ' Dama Triste das Terras Baixas' para você)
"How does it feel?"
( Como é sentir isso?)

Nessa cacofonia, as canções que pareciam impenetráveis e inescrutáveis às vezes vêm à lembrança. Como em "Desolation Row", de "Highway 61 Revisited". Com um toque de poesia beat, a litania de nomes famosos, o ritmo fora da ordem, quase latino e o cenário de pesadelo é uma estrela num teatro absurdo de fama. No começo da música, o cantor se coloca na "Fila da Desolação" e mais de cem versos depois, no final, diz que não podemos criticá-lo se não sabemos o que ele está passando. ("Don't send me no more letters, no / Not unless you mail them from / Desolation Row" Só me mande cartas / Depois que você carimbá-las na Fila da Desolação.)

É importante notar que Dylan escreveu essa canção antes de sua fase de instrumentos elétricos. A cabeça dele rodava tanto na época que podia, sem esforço, criar trechos premonitórios:

Now you would not think to look at him
( Agora, você não pensaria em olhar para ele)
But he was famous long ago
(Mas ele já foi famoso, faz tempo)
For playing the electric violin
(Por tocar violino elétrico)
On Desolation Row
(Na Fila da Desolação)

É engraçado assistir a Dylan hoje, vê-lo no palco e pensar nessas palavras. A turnê Never Ending, que começou em 88, tirou-o da tranqüilidade das gravações e durante anos ele tocou com apenas três músicos de apoio, liderados por G. E. Smith, o estranho líder da banda do programa "Saturday Night Live". Mas Smith era exatamente o que Dylan precisava: alguém que administrasse um conjunto que acompanhasse qualquer canção dele. (Num dos primeiros shows da turnê, Smith subiu no palco de botou a mão no braço da guitarra de Neil Young, que não terminava de tocar duas canções no número de abertura. Quantos músicos de apoio podem dizer que já fizeram uma coisa dessas?)

Nos primeiros meses, a turnê começava sempre com "Subterranean Homesick Blues", canção que Dylan quase não tocava antes. Depois dela, a seqüência variava quase toda noite – em alguns meses, ele tocou umas cem canções diferentes. A pequena banda, em pouco tempo, dobrou o repertório. (Num show dos Rolling Stones, eles ensaiam, digamos, vinte canções para a turnê, com duas ou três de reserva para dar um toque de improviso no show.)

Os primeiros shows da turnê foram sinceros, concatenados e engraçados. Com o tempo e com os anos, Dylan foi ficando cada vez mais estranho. Era fácil assistir um show dele duas ou três vezes por ano: shows bons, shows ruins, shows neutros. Espetáculos em que ele dava uns gemidos de uma canção – um clássico, alguma música famosa – por alguns minutos até que um verso solto fazia a platéia perceber o que estava ouvindo. Os que acompanham as turnês de Dylan dizem que ele é capaz de passar um ano inteiro sem trocar uma palavra com a platéia.

Mas o interessante é que podia-se ver Dylan. Com o tempo, isso ficou importante. Eis o que Bob Dylan fazia: tocava ao vivo (em anos intercalados, com saúde ou não – nem uma grave infecção no coração, que o deixou hospitalizado em 97, diminuiu seu ritmo). Em Nova York e em Los Angeles, Hong Kong e Berlim, mas também, toda noite, em qualquer lugar: em Davenport, no Iowa, em Rochester, Minnesota, em Bristol, no Tennessee, para citar três shows de 94. Em treze cidades da Espanha e Portugal, para pegar um trecho da turnê de 99. Este ano, ele já fez treze shows no Japão, nove na Austrália, quinze no Sul e Meio Oeste americano – e está com dezenas marcados na Escandinávia e na Europa, a partir de junho.

Parece óbvio, portanto, que em 1988, quando Dylan iniciou sua turnê sem fim, ele se sentiu enfiado na terra e com saudades de casa, como diz a letra da canção. É por isso que as viagens em "Hard Rain" e em "Tangled Up in Blue" têm tanta importância e porque, 35 anos depois, as palavras que ficam quando se ouve "Like a Rolling Stone" (Como uma pedra que rola) são "fora de casa."

Dylan é hoje o último mito do sonho que foi o rock dos anos 60. Mick Jagger anuncia Budweiser e Tommy Hilfiger, enquanto novos e respeitados astros como Moby vendem todas as músicas de discos para empresas que alegremente revendem a cultura jovem. Dylan ganha muito dinheiro (principalmente fora do Estados Unidos) e leva para casa de US$ 5 a 10 milhões por ano, por cinco a seis meses de trabalho. Mas ele poderia ganhar isso em algumas semanas, numa rápida turnê com Neil Young ou os Stones. Ou poderia seguir o exemplo de David Bowie ou Pete Townsend e se despedir ou fazer uma turnê de "Maiores Sucessos" a cada dois ou três anos.

Será que a turnê Never Ending é viagem fugindo disso tudo, ou em direção a outra coisa? É fácil ser um astro pop que arreganha os dentes para o público e diz o que ele quer ouvir. Certamente, ninguém vai mandar fazer diferente. É muito mais difícil – e tem um custo físico muito mais alto – ser coerente com uma voz interior e passar a vida tentando comunicar isso com fidelidade, quer as pessoas ouçam ou não, quer gostem ou não.

É o que Dylan está fazendo. Os outros astros estão na verdade se afastando cada vez mais de si mesmos, enquanto Dylan segue o caminho inverso. Elvis morreu em Graceland, é verdade, mas nenhum astro morreu mais distante de sua verdadeira origem. Bob Dylan, no final da turnê Never Ending (no final dessa inesquecível, inegável, incrível carreira e de uma viagem que nenhum astro jamais teve) vai estar em outro lugar: num ponto próximo do descompromissado, ilimitado, barulhentro lugar de onde saiu.

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