Língüa Portuguesa

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Interessante texto (originalmente publicado no Jornal do Brasil) do Martinho da Vila sobre a Língüa Portuguesa, essa desconhecida:

O português nosso de cada dia

Participei da Bienal do Livro num bate-papo na Arena Jovem com o brilhante professor André Valente e o catedrático Pasquale Cipro Neto. Foi uma experiência enriquecedora. Não me arvorei em falar de lingüística ao lado dos dois mestres no assunto. que fiz foi dar uns palpites sobre o tema.

Acho que a nossa língua não está morrendo pela boca, porque o Brasil está diminuindo o analfabetismo, o número de leitores está aumentando e, portanto, a cada dia temos mais gente falando melhor.

O português do Brasil é muito bonito quando as palavras são bem articuladas, mas a maioria dos brasileiros não se expressa muito bem, inclusive eu. Escrevo melhor do que falo e não dou trabalho aos revisores dos meus livros.

Por falar nisso, sempre que alguém manda um texto para dois revisores, as observações nunca são as mesmas. Costuma haver divergências na pontuação e até nas vírgulas.

A nossa língua é muito difícil mesmo. Poucas pessoas conseguem se expressar de maneira elegante, sem serem pedantes.

Todos sabem que o nosso português de cada dia é falado de muitas maneiras nas várias regiões. Palavras novas, ditas em diversos sotaques, acabam entrando para os dicionários e enriquecem o nosso vocabulário.

O pessoal do Norte ri do sotaque dos do Sul e vice-versa. O paulista acha gozado o jeito baiano de falar e os mineiros riem dos nordestinos, mas todos gostam do jeito carioca de falar, quando não exageramos nas gírias. Falantes de outros Estados estão diminuindo os seus sotaques e acredito que vai chegar o dia em que todos falarão como nós.

Com relação aos estrangeirismos, o que deveríamos fazer é aportuguesá-los, tanto na escrita como na fala, como fazem os franceses. Eles não se esforçam para pronunciar palavras de outras línguas da maneira original. Afrancesam tudo. Por exemplo, quando vou atuar na França e um apresentador vai anunciar o meu show, com personalidade, brada: "Avec vous, Martinho da Vilá".

Uma das vezes que eu estive em Paris, estava em cartaz um show de um artista americano que admiro, chamado Little Richard, mas não sei como se pronuncia, se é "lírou" ou "lítou". Fui comprar ingresso para o show dele, e pedi:

- Um Little Richard, por favor.

- Coman?

Aí eu mandei meu francês de rua:

- Je vê am bilhet pur Lírou Rítchar, sil vous plait.

Ele continuava não me entendendo, até que apontei para uma foto do artista.

- Pardon, messier me en France il s'apele Lirô Richard - ele disse, sorrindo.

Nas minhas andanças pelo Brasil, observo que o nosso português está se unificando naturalmente. Creio que num futuro mais longínquo, até os portugueses incorporarão a pronúncia brasileira. Às vezes brinco com portugueses amigos, dizendo que se eu morasse em Portugal, iria fundar uma escola de português do Brasil em Lisboa e ganhar dinheiro, porque a maioria dos lusos gosta da nossa maneira de se expressar.

Para terminar, declaro que não sou favorável à lei de unificação da língua portuguesa. Minha opinião é que devemos ser independentes na nossa escrita, seguindo apenas as diretrizes baixadas pelo Ministério da Educação e atentar para as observações da nossa Academia Brasileira de Letras.

Obrigado.

Comments

2 Responses to “Língüa Portuguesa”
Post a Comment | Postar comentários (Atom)

Borges disse...

Aham. Sei. Todo mundo gosta do sotaque carioca. Os paulistanos devem ser os maiores fãs.

Os portugueses, então, nem se fala.

Mas concordo com o Martinho na questão principal. A gente tem mais é que separar a ortografia e, digo mais, a gramática também, pois há tempos a gramática que aprendemos como formal não reflete o nosso uso da língua.

23:42
Borges disse...

Em tempo: o trema no "Língüa" foi proposital?

23:43