Quem é?

domingo, 30 de dezembro de 2007



Sabe quem é esse moço aí em cima? O mito, a lenda, ele: o sr. Barriga, clássico personagem do Chaves. Ele participou de um episódio da série Tempo Final, exibida pela Fox. Pena que não acompanho esta série, mas foi muito legal ver que ele continua vivo e trabalhando.

Never Ending Tour

Já que postei estes vídeos do Bob Dylan, andei me recordando de algumas coisas que tenho sobre ele aqui na minha máquina. Vou postar um enorme artigo, que o falecido no.com.br publicou em 23/05/2001. O autor é Bill Wyman, e a tradução é de Beatriz Horta.

O mistério Dylan

Bill Wyman


O crepúsculo de Bob Dylan é iconoclasta mas, mesmo assim, crepúsculo. Com muito gosto, ele aparece em todos os shows de premiação, piscando incessantemente. Diz alguma coisa incompreensível e sai do ar outra vez. Quem der uma olhada na carreira dele nos últimos vinte anos, vai se surpreender com a perspicácia e o descaso. Num palco, ele pode fazer uma interpretação empolgante – ou indiferente.

Dylan faz 60 anos na quinta-feira, dia 24. Está triste? Patético? Poderoso? Indomável? Difícil dizer. Pode-se pensar em Dylan de diversas formas, num dia ou numa hora. A começar pelos belos versos de "A Hard Rain's A-Gonna Fall", sua primeira letra épica. Conta uma história simples: um sujeito levanta, sai, volta. 'O que você viu?' pergunta o pai dele. O cantor diz. O que você ouviu? O que vai fazer agora?

Décadas depois dessa canção, Dylan recontou a mesma história diversas vezes, com todos os tipos de balanço: é a história de "Tangled Up in Blue", seu caso de amor mais divertido e em "Isis", o mais sanguinário.

Fui, vi, voltei. Dylan – um modelo de auto-criação, como nunca se teve – com uma vida cheia de duplos, espelhos e clones: a pessoa que volta está mudada, no fundo ela é diferente, outro. O uso recorrente da história da viagem faz Dylan alimentar esse 'outro' de todas as formas. Em "Hard Rain", o cantor, poderoso e cheio de si, se transforma num profeta numa época atormentada. Quase da mesma forma, Dylan também virou uma pessoa incerta e, talvez sem querer, porta-voz de uma geração migrante e inquieta, uma geração mais ciente de si mesma como "especial" do que qualquer outra.

É importante lembrar que Dylan esteve levemente isolado de sua geração, mergulhado no rock dos anos 50 e na poesia pré-rock de Woody Guthrie. Ele um dia foi Robert Zimmerman, nascido em Hibbing, no Minessota, e ficou sem dúvida marcado por largar a casa, a família e a infância antes dos vintes anos. Em 1966, o rebatizado Bob Dylan, 25 anos, já tinha se reiventado quando milhares de jovens defenderam os direitos civis, a liberdade de expressão e a luta contra a guerra do Vietnã.

Mas ele sentiu que era preciso mudar.

Dylan viu a transformação de sua vida e da vida dos fãs antes deles e entendeu que, quando você parte, deixa para trás uma versão e que um novo personagem surge pelo caminho. A idéia ficou cantando na cabeça dele e ecoou na cabeça de uma geração. Ele leva isso ao extremo em "Hard Rain", a mais imatura das canções de viagem e, mesmo assim, a mais visionária. Escondido numa mistura de horror nuclear e ruptura social está algo mais prosaico: um adolescente sonha em ser adulto, enquanto um pai se transforma num homem comum e a criança, recém-adulta, pode falar nas coisas maravilhosas que viu, contar vantagem do que ainda vai fazer para tudo ficar certo.

Será esse o sentido do desejo do viajante por seu lar? Experimentá-lo como uma pessoa diferente, mudar o passado confrontando-o com novos conhecimentos e habilidades? Uma viagem assim é uma espécie de ódio de si mesmo, uma auto-rejeição, algo que a maioria das pessoas sente no caminho para ser adulto. A canção também tem ecos daqueles clichês americanas: a viagem para o oeste (alimentado por uma vontade de ver o que está fora de vista), encontrando um extremo, correndo até não poder ir mais a lugar algum.

A carreira de Bob Dylan – 40 anos, mais de 40 discos, centenas de canções gravadas, mais de 1.500 apresentações ao vivo – é vasta o bastante para caber tudo, do trivial ao raro. Dylan é um roqueiro, um visionário, um poeta, um estudante convincente de folk e blues, um belo compositor, um rebelde, o mais tranqüilo, o mais desligado dos astros e talvez o mais cruel. Entre outras coisas, foi ele quem primeiro rompeu o domínio das bobagens otimistas, quem disse à platéia o que ela não queria ouvir.

Dylan é o mais anti-estrela de todos os gigantes do rock, lutando e abafando a fama com uma descompromissada fúria por quase 40 anos. É também o astro mais estranho: a vida dele é mais esquisita que a de Elvis Presley. Pode ser também o melhor de todos. Ninguém escreveu canções tão agressivas, lindas, complexas, inesquecíveis: "Hard Rain" , "Chimes of Freedom", "Like a Rolling Stone", "Visions of Johanna", "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding), "Tangled Up in Blue", "Hurricane."

Sua carreira, quarenta anos ininterruptos, é enorme, contraditória e impossível de ser apreendida. Chamar de algo tão banal quanto "a viagem" não faz qualquer sentido.

Até que se leva em conta o seguinte: no início dos anos 80, após vinte anos de agito incessante e muita controvérsia, Dylan reduziu a marcha. Quase não fez shows nos Estados Unidos e, quando fez, foram aparições ao lado de bandas como The Grateful Dead ou Tom Petty and the Hertbreakers. E gastou tempo demais gravando discos dispensáveis, como "Down in the Groove" e "Knocked Out Loaded". Ficou claro que depois de vinte anos, Dylan estava baixando a bola. Não interrompeu a viagem, mas durante algum tempo ela passou para velocidade cruzeiro.

Até que, no verão de 88, ele formou um pequeno conjunto e fez uma turnê. Em quatro ou cinco meses, fez 71 shows, conforme contam seus biógrafos on line. Em 89, manteve o ritmo: fez 99 shows e, no ano seguinte, 96. Trabalhou a década toda assim – em 99, fez 116 shows.

Dos 47 anos até agora, ele passou quase a metade do tempo na estrada. Nenhum outro grande astro se apresenta com tanta freqüência e é provável que nos últimos 13 anos ele tenha feito mais shows do que quase todos os intérpretes da história da música popular americana: 13 anos viajando de uma cidade para outra, toda noite, de avião, ônibus, carro e táxis, cruzando os Estados Unidos e o mundo.
Que tipo de viagem é essa? Onde começou? Para onde vai? E onde ele estará quando terminar?


Antes de Dylan, muitos letristas criaram canções de qualidade inegável, apaixonadas, sutis, complexas, mas nunca uma tal torrente, com tal arrogância e conhecimento, tal loquacidade ilimitada, simbolismo, ambição e graça e num vertiginoso turbilhão de exploração, coragem, dissonância e sofrimento.

Claro que uma parte dessa produção era provocada pelo surrealismo da anfetamina e da maconha. Há muito papo furado, bobagem, piadas, futilidade. Muitas de suas famosas canções "de protesto" ("Masters of War", por exemplo), são bisonhas; as supostas canções de amor são mesquinhas e algumas faixas dos discos do final dos anos 60 são apenas passáveis. O hino "Rainy Day Women 12 & 35" é imperdoável, estraga "Blonde on Blonde", que poderia ser um perfeito disco de rock. Um lançamento esquecido de 1970, "Self Portrait", é um inexplicavelmente ridículo álbum duplo de capas e refugos. (Alguns anos depois, a Columbia lançou uma coleção pior ainda, "Dylan", sem autorização do próprio.) E seu primeiro disco, "Bob Dylan" é, bem, um primeiro disco.

Dito isso, a obra de Dylan entre 1962 e 77 não tem comparação. Até as músicas mais bobas pedem para serem levadas a sério e grande parte das canções são incomparáveis. Muitos discos com músicas valiosas devem ser considerados, numa avaliação criteriosa, como o que há de melhor e mais convincente no rock ("The Freewheelin1 Bob Dylan", "The Times They Are A-Changin' ", "Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited", "Live 1966", "Blonde on Blonde", "The Basement Tapes", "Before the Flood", "Blood on the Tracks" e, com restrições "Planet Waves" e "Desire"). Dylan é um dos cantores de rock mais eloqüentes, sensuais e imprevisíveis. Além de um dos mais raivosos. Toca com perfeição a gaita e é um insistente e talvez menosprezado criador de melodias. E não podemos esquecer que, mesmo sem ser citado nos créditos de produção de seus discos, durante 15 anos ele supervisionou a criação do que continuam sendo os mais surpreendentes, evocativos e arrepiantes discos de base acústica.

No final da década de 50, ele surgiu na cena folk nova-iorquina e o jovem bochechudo da primeira capa de disco logo emagreceu e ficou transado. Seu estilo também começou como cantor de folk convencional e imediatamente ficou não-convencional, transcendendo o gênero. Seu segundo disco, "Freewheelin", tem, entre outras, "Blowin' in the Wind", "Don't look Twice, It's All Right" e "A Hard Rain's A-Gonna Fall." De todas elas, "Don't look Twice" é a menos importante, mas que até 99, retrabalhada e aumentada, se transformou num triste e inesquecível ponto alto de seus shows. O terceiro disco, "The Times They Are A-Changin", tem a excelente canção-título, mais "Ballad of Hollis Brown", um assustador gótico rural; " The Lonesome Death of Hattie Carroll" provavelmente sua mais certeira e convincente canção de protesto e, finalmente, "Boots of Spanish Leather", um clássico abstrato e uma das mais puras e desconcertantes canções folk da época.

"Another Side of Bob Dylan" é um disco de menos "afinidade", que contém "Chimes of Freedom" o adorável hino para "os inúmeros confusos, acusados, mal usados, estressados ou pior". Após esse disco, ele desenvolveu seus talentos e, entre março de 65 e maio de 66, lançou oito LPs ("Bringing It All Back Home", "Highway 61 Revisited" e o duplo "Blonde on Blonde", sem falar de "Positively 4th Street", o mais cruel compacto a chegar à lista dos dez mais. Ele superou-se ao compor, cantar e apresentar todas elas.

"Bringing It All Back Home" começa com sua primeira canção gravada com instrumentos elétricos, "Subterranean Homesick Blues" e inclui também "Maggie's Farm", um olhar rápido e lacônico na indústria de serviços; "Mr. Tambourine Man", o maior canto de vitória da psicodelismo, ainda mais estimulante pelo arranjo acústico. E ainda: "Love Minus Zero/ No Limit", a canção de amor diferente que começa com o verso "My love she speaks like silence / Without ideals of violence" (Meu amor, ela fala em silêncio, sem pensar em violência) e "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)" que alguém uma vez disse que está para o capitalismo como "Darkness at Noon " está para o comunismo. ( A canção também contém alguns dos mais famosos versos de Dylan: "He not busy being born is busy dying" (Quem não faz força para nascer, faz na hora de morrer) "It's easy to see without looking too far / That not much is really sacred" (É fácil enxergar sem precisar olhar muito longe / Não há muita coisa realmente sagrada) e "Even the president of the United States / Sometimes must have to stand naked" (Até o presidente dos Estados Unidos / às vezes precisa ficar nu"); "Money doesn' t talk, it swears" (O dinheiro não fala, ele jura); "If my thought-dreams could be seen / They'd probabbly put my head in a guillotine" (Se meus maiores sonhos pudessem ser vistos / Eles provavelmente poriam minha cabeça numa guilhotina).

Em 65, depois que lançou esse disco, Dylan fez uma pequena turnê pela Europa, registrada no documentário "Dont (sic) Look Back". Na volta, encontrou a platéia pop dividida a respeito de "Subterranean Homesick Blues"; ao tocá-la com instrumentos elétricos no Festival Folk de Newport e em Forest Hills, em Queens, ele foi vaiado, para sua consternação.

Em meio a essa roda-viva de trabalho, ele se casou com Sara Lownds (ou Lownes, ou Lowndes) no final de 65, com quem teve quatro filhos nos cinco anos seguinte: Jesse, Anna, Samuel e Jacob. O caçula hoje se chama Jakob e faz sucesso com sua banda Wallflowers. (Por estranho que pareça, durante 30 anos os biógrafos de Dylan deram às crianças nomes e idades diferentes, além de escreverem de diversas formas o sobrenome de Sara de seu casamento anterior. E a maioria dos biógrafos não cita o verdadeiro nome dela, que parece ser Shirley Nowinsky).

O disco "Highway 61 Revisited" começa com "Like a Rolling Stone", uma bela canção. Dylan uma vez aceitou um prêmio de direitos civis num jantar grã-fino e disse, seco, para a platéia engalanada: "Meus amigos negros não usam terno". Na música "Like a Rolling Stone" ele cospe outra vez no prato onde comeu, retratando toda uma geração de jovens como uma associação beneficente de moças – e esse é apenas o primeiro verso. Nos seguintes, ele fica desagradável e o resto da canção corresponde em rock a uma daquelas cenas do seriado de tevê "The Sopranos" em que um marginal fica chutando quem já está no chão. Será que "Like a Rolling Stone" é a música mais poderosa, difícil, inesperada e insensível do rock? Tem algum outra candidata?

A canção "Highway 61 Revisited" pode ser a mais perturbadora música de Dylan, um poema de capitalismo brutal, incesto, farsa bíblica, fomento à guerra e lazer familiar, tudo numa batida que até hoje faz suas fãs youppies caírem na dança em shows.

Em "Blonde on Blonde" só a voz em si é um mostruário do genoma das emoções humanas, exceto talvez a piedade. Uma das grandes alegrias da era CD é ouvir esse conto épico sem parar, do início ao fim. Dylan se gaba, conta vantagem, suspira, ama, perde, sorri, lastima, suplica, deseja, definha e viaja – e isso só em "Pledging My Time" e "Visions of Johanna." O disco contém "Just Like a Woman", uma canção de amor tão elegante e confusa que até hoje, 35 anos depois, ninguém sabe se é insuportavelmente condescendente ou surpreendentemente adorável. Outra canção engraçada é "Stuck Inside of Mobile With the Memphis Blues Again", com um personagem feminino mais sagaz: Ruthie, que diz a ele que ela, debutante, sabe bem o que ele precisa e o que quer. O disco tem uma canção que dura um lado inteiro, na época do vinil; trata-se de uma canção de amor para Sara Dylan, "Sad Eyed Lady of the Lowlands", mais exaltada e perturbada até do que "Astral Weeks", de Van Morrison.

Dylan sofreu um acidente de moto em 66 e nunca se soube quão grave foram os ferimentos. Nos anos seguintes, ele tocou com The Band em Woodstock e lançou discos mais calmos, mais sutis -- "John Wesley Harding, "Nashville Skyline", o perplexo Self-Portrait e, finalmente, "New Morning", de título alegre e interpretação contida.

Em meados dos anos 70, ele realmente voltou. Foi o único de seus companheiros dos anos 60 a conseguir um surto de criatividade igual ao do começo da carreira. De 74 a 77, lançou "Planet Waves" uma parca mas misturada coleção de canções gravadas com The Band: "Before the Flood", um disco duplo alto, feroz e áspero, ao vivo na elogiada turnê de 72; "The Basement Tapes", uma coleção de cinco anos de gravações muito pirateadas de seu tormento no Jardim do Getsêmani em Woodstock; "Blood on the Tracks, um ciclo de românticas e perturbadoras canções épicas e "Desire", um disco de rock agitado e forte.

A seguir, ele organizou e participou da turnê Rollin Thunder, que incluía Joan Baez, Ramblin' Jack Elliott, Ronee Blakely, Roger McGuinn, Mick Ronson, T-Bone Burnett e muitos olhos velhos amigos e músicos. Mais tarde, dirigiu um filme de quatro horas baseado na turnê, chamado "Renaldo e Clara". Esta fase terminou com um incrível e peculiar show de uma hora na tevê que está imortalizado no disco ao vivo "Hard Rain". Canções que costumam ser menosprezadas, da fase pós Rolling Thunder, estão em "Street Legal" e "At Budokan", dois discos ao vivo imortalizando a fracassada tentativa de Dylan de fazer um show ao estilo de Las Vegas numa escala mundial.

O apogeu de sua carreira é, talvez, "Blood on the Tracks". Em suas raras entrevistas, Dylan fica agressivo quando perguntam se o disco retrata sua separação de Sara. De todo jeito, com 15 anos de fama para trás e o fracasso de um casamento de dez anos pela frente, é verdade que Dylan nesse disco olha o mundo através de óculos respingados de sangue. As perdas que ele canta parecem fatais, sua raiva em canções como "Idiot Wind" parece com a do rei Lear. "Blood on the Tracks" é o único disco impecável e o melhor produzido; cada uma das canções é construída de forma disciplinada, escrita e reescrita, como quase nunca são. É o seu disco mais amável e mais desanimado e parece ter finalmente encontrado um equilíbrio entre a verborragia dos anos 60 e as composições simples dos anos pós-acidente de moto.

O disco começa com "Early one morning the sun was shining. A voz de Dylan está mais calma e mais suave do que nunca foi ou nunca mais seria, cada verso, cada palavra é pronunciada e tem um sentido. Mais de 25 anos depois do lançamento, o disco oferece inesperados e emocionantes momentos. Um título como "You're a Big Girl Now'" sugere que a faixa é de uma de suas canções de amor mais condescendentes. mas acaba sendo arranjada, interpretada e cantada da forma mais delicada. Dois versos depois, Dylan canta "I'm back in the rain" e um minuto depois, num final emocionado, sussurra: "Posso mudar, eu juro", um momento inefável em sua canção mais vulnerável.

A canção "Idiot Wind" é sobre verdade, amor e ódio; "Lily, Rosemary and the Jack of Hearts" é um faroeste abstrato meticulosamente construído. A última faixa, "Buckets of Rain", é um contrapeso – há imagens que lembram chuva no disco todo. Parece inocente, até que o ouvinte presta mais atenção e escuta o som da guitarra que acompanha a letra e pára, com as cordas ressoando no cabo da guitarra, as mãos do músico silenciando. E aí percebe que o disco terminou.

Depois de "Blood on the Tracks", houve um longo declínio. O casal talvez tenha pago com o casamento os problemas mostrados nesse disco. Apesar de um pedido que parece sincero no disco "Desire" numa canção chamada "Sara", o casal se separou em 77. Ele estava com 36 anos.

Nascido judeu, se converteu ao cristianismo no final dos anos 70 e gravou dois discos cheios de devoção. Como muitos cristãos, ele ficou maçante ao tocar no tema. O disco que marca a conversão, "Slow train coming", tem produção de Mark Knopfler, líder do grupo Dire Straits, mas as canções são pueris, em geral. No disco "Saved", lançado a seguir, os famosos produtores do rithm & blues Jerry Wexler e Barry Beckett não conseguiram evitar que Dylan cantasse num tom agudo e parecesse ainda mais intolerante. Em 79, ele fez uma turnê com um grupo de gospel e se recusou a cantar qualquer música do repertório antigo, recebendo vaias da platéia. Um ano depois, estava outra vez na estrada, reduzindo os golpels e aceitando tocar algumas preciosidades antigas.

A década de 80 foi uma fase difícil: há canções bonitas, mas as bobas e ruins surgem em maior número. Os discos seguintes pareciam feitos às pressas e sem cuidado. Tinham capas feias e uma seleção aleatória, faltava produção. Muita gente gosta de "Infidels" e Dylan trabalhou outra vez com Knopfler: embora as canções sejam maduras e complexas, as melodias são muito parecidas e o disco como um todo tem ecos de seus dias excêntricos de cristão. Ele parecia particularmente tocado pela idéia de viagem espacial. "Jokerman", que é para ser a melhor faixa do disco, tem longos trechos absurdos e o que parecem ser piadas com provérbios bíblicos.

"Desire", de 76, tem um crédito engraçado: "Este disco poderia ter sido produzido por Don DeVito" mas, em meados dos anos 80, Dylan levou a piada a sério e supervisionou a produção da maior parte dos discos com ajuda de vários engenheiros de som. O resultado é bem amador, há faixas com muito eco e milhares de outros problemas irritantes.

Mas não que ele estivesse estragando grandes músicas. O disco "Empire Burlesque" (85) tem uma canção forte e bonita, "Dark Eyes". Já o disco "Knocked Out Loaded" tem um épico de 16 minutos escrito em parceria com Sam Sheppard ("Brownsville Girl") que é engraçado ouvir uma vez. (Como uma espécie de piada, Dylan incluíu essa música em "Greatest Hits, volume 3.") Outro disco descartável da época foi "Down in the Groove"(88) com Dylan empalidecido como letrista por Robert Hunter, da banda Grateful Dead. A jogada comercial mais esperta que Dylan fez na vida foi sair em turnê com os Dead em 87 e, no disco "Groove", ter Jerry Garcia e Bob Weir cantando numa faixa. ("Silvio"). Membros do Greatful Dead de sorrisos beatíficos passariam a freqüentar sempre os shows de Dylan depois da turnê "Never Ending" e, infelizmente, "Silvio" passou a ser uma das suas músicas mais tocadas ao vivo.

Na década de 90, ele continuou ao adernando, até que finalmente contratou dois produtores: Don e David Was trouxeram alguns bons profissionais de estúdio e fizeram seu primeiro disco da década, "Under the Red Sky", um desastroso resplendor. A bateria está tão alta que o ouvinte tem vontade de dar um tiro em Kenny Aronoff. "Oh Mercy" foi rearranjada Daniel Lanois, mestre de uma guitarra com sonoridade alterada eletronicamente; é irritante ouvir as canções de Dylan tão alteradas. Mas há boas faixas ("Most of the Time", "Shooting Star", ambas simples e diretas) que fazem com que essa seja a mais coerente e audível coleção de canções que Dylan lançou, desde "Desire."

Finalmente, parecendo se dar por vencido, no início dos anos 90 Dylan gravou dois discos de canções folk, "Good as I Been to You" e "World Gone Wrong". Provando como ele é imprevisível, o primeiro disco é entediante e o segundo, um documento, um passeio hipnotizante e sanguinário pela história encharcada de sangue da música folk e do blues. O disco tem também as melhores notas desde a década de 60. ("By the way, don' t be bewildered by the Never Ending Tour chatter. There was a Never Ending Tour but it ended" – Aliás, não se incomode com essa história de turnê Sem Fim. Houve uma, mas acabou.)

Em 97, ele lançou "Time Out of Mind", no qual finalmente conseguiu juntar um som de estúdio de qualidade a uma coleção intrigante de canções. O disco é muito elogiado (ganhou a pesquisa Pazz & Jop, do jornal Village Voice feita pelos críticos de rock do país) e tem uma canção de trabalho forte e original, a surpreendente "Love Sick" e uma ou duas do nível de "Oh Mercy", como "Not Dark Yet" ("Things Have Changed", canção do filme "Wonder Boys" que ganhou um Oscar no ano passado, parece uma música do disco "Time Out of Mind", mas na verdade foi gravada dois anos depois.)

De certa forma, Dylan merece ser bem mais criticado do que é. Hoje, todo mundo o adora, mas a maior parte das pessoas que falam nele ou dão Oscars e Grammys para ele, não se dá ao trabalho de olhar as muitas músicas ruins que gravou (e lançou! e vendeu à beça!) nos últimos 20 anos. Essas mesmas pessoas também não assistem aos shows dele.

E ainda assim ele é subestimado. Quando se passa alguns dias ouvindo seus discos, a cabeça fica cheia de palavras. São amantes e heróis, charlatães e idiotas, heróis e oprimidos (e alguém que um dia foi um menino de muita ambição) lutando para chamar sua atenção:

"Darkness at the break of noon"
(O escuro no cair da tarde)
"Ain't it just like the night to play tricks / When you're trying to be so quiet?"
(Esta não é uma noite para fazer brincadeiras / Quando você tenta ficar bem quieto?)
"And I'll tell it and think it and speak it and breathe it"
(E vou dizer, pensar, falar, respirar isso)
"Spanish boots of spanish leather"
(Botas espanholas de couro espanhol)
"And then Caribbean winds still blow / From Nassau to Mexico"
(O vento do Caribe ainda sopra / De Nassau ao México)
"A million faces at my feet / But all I see are dark eyes"
(Milhões de rostos aos meus pés / Mas tudo que vejo são olhos negros)
"I can't help if I'm lucky"
(Não posso fazer nada, sou sortudo)
"Her fog, her amphetamine and her pearls"
( A indefinição dela, a anfetamina e as pérolas)
"Ma, take this badge off of me"
(Mãe, tira esse distintivo de mim)
"Twas then that I knew what he had on his mind"
( Foi aí que eu vi o que ele estava pensando)
"Pistol shots ring out in a baroom night"
(Tiros de revolver soam no bar, à noite)
"Oh, Mama, can this really be the end?"
(Ah, mãe, será que esse é mesmo o fim?)
"I got blood in my eyes for you"
(Meus olhos sangram por você)
"I'm going out of my mind / With a pain that stops and starts"
(Vou ficar louco / Com uma dor que vai e volta)
"And never sat once at the head of the table"
(E nunca sentou na cabeceira da mesa)
"There's seven people dead in a South Dakota farm"
(Há sete pessoas mortas numa fazenda da Dakota do Sul)
"Yes, and only if my own true love was waitin' "
(Sim, só se meu verdadeiro amor estivesse à espera)
"Turn, turn, to the rain and the wind"
(Vire-se, vire-se para a chuva e o vento)
"Come in, she said, I'll give you / Shelter from the storm"
(Entra, disse ela, vou te proteger da tempestade)
"Stayin' up for days at the Chelsea Hotel / Writing 'Sad Eyed Lady of the Lowlands' for you"
(Passei dias no Hotel Chelsea, escrevendo ' Dama Triste das Terras Baixas' para você)
"How does it feel?"
( Como é sentir isso?)

Nessa cacofonia, as canções que pareciam impenetráveis e inescrutáveis às vezes vêm à lembrança. Como em "Desolation Row", de "Highway 61 Revisited". Com um toque de poesia beat, a litania de nomes famosos, o ritmo fora da ordem, quase latino e o cenário de pesadelo é uma estrela num teatro absurdo de fama. No começo da música, o cantor se coloca na "Fila da Desolação" e mais de cem versos depois, no final, diz que não podemos criticá-lo se não sabemos o que ele está passando. ("Don't send me no more letters, no / Not unless you mail them from / Desolation Row" Só me mande cartas / Depois que você carimbá-las na Fila da Desolação.)

É importante notar que Dylan escreveu essa canção antes de sua fase de instrumentos elétricos. A cabeça dele rodava tanto na época que podia, sem esforço, criar trechos premonitórios:

Now you would not think to look at him
( Agora, você não pensaria em olhar para ele)
But he was famous long ago
(Mas ele já foi famoso, faz tempo)
For playing the electric violin
(Por tocar violino elétrico)
On Desolation Row
(Na Fila da Desolação)

É engraçado assistir a Dylan hoje, vê-lo no palco e pensar nessas palavras. A turnê Never Ending, que começou em 88, tirou-o da tranqüilidade das gravações e durante anos ele tocou com apenas três músicos de apoio, liderados por G. E. Smith, o estranho líder da banda do programa "Saturday Night Live". Mas Smith era exatamente o que Dylan precisava: alguém que administrasse um conjunto que acompanhasse qualquer canção dele. (Num dos primeiros shows da turnê, Smith subiu no palco de botou a mão no braço da guitarra de Neil Young, que não terminava de tocar duas canções no número de abertura. Quantos músicos de apoio podem dizer que já fizeram uma coisa dessas?)

Nos primeiros meses, a turnê começava sempre com "Subterranean Homesick Blues", canção que Dylan quase não tocava antes. Depois dela, a seqüência variava quase toda noite – em alguns meses, ele tocou umas cem canções diferentes. A pequena banda, em pouco tempo, dobrou o repertório. (Num show dos Rolling Stones, eles ensaiam, digamos, vinte canções para a turnê, com duas ou três de reserva para dar um toque de improviso no show.)

Os primeiros shows da turnê foram sinceros, concatenados e engraçados. Com o tempo e com os anos, Dylan foi ficando cada vez mais estranho. Era fácil assistir um show dele duas ou três vezes por ano: shows bons, shows ruins, shows neutros. Espetáculos em que ele dava uns gemidos de uma canção – um clássico, alguma música famosa – por alguns minutos até que um verso solto fazia a platéia perceber o que estava ouvindo. Os que acompanham as turnês de Dylan dizem que ele é capaz de passar um ano inteiro sem trocar uma palavra com a platéia.

Mas o interessante é que podia-se ver Dylan. Com o tempo, isso ficou importante. Eis o que Bob Dylan fazia: tocava ao vivo (em anos intercalados, com saúde ou não – nem uma grave infecção no coração, que o deixou hospitalizado em 97, diminuiu seu ritmo). Em Nova York e em Los Angeles, Hong Kong e Berlim, mas também, toda noite, em qualquer lugar: em Davenport, no Iowa, em Rochester, Minnesota, em Bristol, no Tennessee, para citar três shows de 94. Em treze cidades da Espanha e Portugal, para pegar um trecho da turnê de 99. Este ano, ele já fez treze shows no Japão, nove na Austrália, quinze no Sul e Meio Oeste americano – e está com dezenas marcados na Escandinávia e na Europa, a partir de junho.

Parece óbvio, portanto, que em 1988, quando Dylan iniciou sua turnê sem fim, ele se sentiu enfiado na terra e com saudades de casa, como diz a letra da canção. É por isso que as viagens em "Hard Rain" e em "Tangled Up in Blue" têm tanta importância e porque, 35 anos depois, as palavras que ficam quando se ouve "Like a Rolling Stone" (Como uma pedra que rola) são "fora de casa."

Dylan é hoje o último mito do sonho que foi o rock dos anos 60. Mick Jagger anuncia Budweiser e Tommy Hilfiger, enquanto novos e respeitados astros como Moby vendem todas as músicas de discos para empresas que alegremente revendem a cultura jovem. Dylan ganha muito dinheiro (principalmente fora do Estados Unidos) e leva para casa de US$ 5 a 10 milhões por ano, por cinco a seis meses de trabalho. Mas ele poderia ganhar isso em algumas semanas, numa rápida turnê com Neil Young ou os Stones. Ou poderia seguir o exemplo de David Bowie ou Pete Townsend e se despedir ou fazer uma turnê de "Maiores Sucessos" a cada dois ou três anos.

Será que a turnê Never Ending é viagem fugindo disso tudo, ou em direção a outra coisa? É fácil ser um astro pop que arreganha os dentes para o público e diz o que ele quer ouvir. Certamente, ninguém vai mandar fazer diferente. É muito mais difícil – e tem um custo físico muito mais alto – ser coerente com uma voz interior e passar a vida tentando comunicar isso com fidelidade, quer as pessoas ouçam ou não, quer gostem ou não.

É o que Dylan está fazendo. Os outros astros estão na verdade se afastando cada vez mais de si mesmos, enquanto Dylan segue o caminho inverso. Elvis morreu em Graceland, é verdade, mas nenhum astro morreu mais distante de sua verdadeira origem. Bob Dylan, no final da turnê Never Ending (no final dessa inesquecível, inegável, incrível carreira e de uma viagem que nenhum astro jamais teve) vai estar em outro lugar: num ponto próximo do descompromissado, ilimitado, barulhentro lugar de onde saiu.

Mais clipes

Já que estou numa de postar vídeos, seguem aí mais três, do interminável Bob Dylan.

- Like a Rolling Stone



- Hurricane



- Things Have Changed

Clipes

Três clipes do The Strokes, todos do primeiro álbum deles, Is This It?. Fiquei chapado com as músicas desse disco durante muito tempo (e volta e meia ouço-o de novo).

- Modern Age



- Hard To Explain



- Last Nite

Realmente o melhor

sábado, 29 de dezembro de 2007

Trecho da entrevista (publicada no Prosa & Verso do Globo de hoje) com o escritor Nathan Englander (sobre o qual eu nunca tinha ouvido falar), autor do recém-lançado pela Rocco Para Alívio dos Impulsos Insuportáveis (obs.: o livro já havia sido publicado há 8 anos nos EUA):

O GLOBO: “Para alívio dos impulsos insuportáveis” foi publicado há oito anos. O que você acha hoje das histórias?

NATHAN ENGLANDER: Acabo de ver a edição brasileira. É divertido vê-las de novo. É um bom teste, ver algo reaparecer depois de tanto tempo. Mas tenho essa idéia, uma regra que estabeleci logo que comecei a escrever, mesmo sem saber se iria mantê-la: você faz seu trabalho como algo isolado, privado, mas sinto que nada deveria ser mostrado ao mundo até que você esteja pronto a responder por isso para sempre.

A escrita é a única coisa na vida em que eu realmente tento o meu melhor. Não quase o melhor, ou “eu estava ocupado, fiz o melhor que podia”.

É realmente tudo que eu tinha num certo momento. Isso traz uma sensação de encerramento.

Quando um livro é publicado, é porque está pronto. E a idéia é que se me dessem mais dez anos com essa coleção eu não mudaria uma palavra.

Fim

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O último dia útil de 2007 acabou, trabalho agora só em 2008. Enfim uma boa notícia.

Explore

Ontem eu descobri uma coisa bem bacana (pelo menos para mim): 4 de minhas fotos foram escolhidas para o Explore do Flickr, onde são reunidas as 500 fotos mais interessantes de cada dia. É claro que são 4 de um universo de (no momento) 988 fotos minhas, mas eu sou um cara que tem conhecimento zero de técnicas de fotografia, portanto é bem legal alguém ter gostado de alguma delas.

Vou botar as 4 aqui:

- Posição 26 do dia 27 de novembro de 2004

Amor felino


- Posição 424 do dia 29 de setembro de 2005

Sono


- Posição 70 do dia 9 de dezembro de 2005

Solidariedade pós-parto I


- Posição 393 do dia 21 de outubro de 2007

No quintal II

Septuagésimo e último

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Acabei de ler o ótimo O Sr. Pip (se tiverem a oportunidade de lê-lo, não a desperdicem). Se eu não tiver uma crise de abstinência de última hora este deverá ser o meu septuagésimo e último livro do ano. Logo vou preparar um top ten de melhores leituras de 2007 e postá-lo por aqui nos próximos dias.

Para o ano que vem pretendo dar uma diminuída radical na quantidade de livros lidos para usar o tempo economizado em outros projetos (sobre os quais falarei em outro momento).

Chinatown goitacá

Ultimamente tenho almoçado em uma pastelaria chinesa perto do banco (sim, eu sei, essa comida não é saudável!). Os atendentes do balcão são brasileiros, mas os responsáveis pela caixa registradora e os fritadores são todos chineses.

É engraçado assistir às conversas entre eles. Não sei se falam mandarim, cantonês ou outro dialeto, mas é curioso como parece que não há palavras, apenas grunhidos: uem, uiiim, uwuuuum, raaauuum.

O que teria trazidos estes chineses a Campos dos Goytacazes para abrir pastelarias? Por que não grandes cidades? Será que esses que vieram para cá são os mais pobrezinhos, que talvez não conseguissem alugar espaço nas grandes capitais? Leio que a economia da China está crescendo absurdamente, será que não havia formas melhores de ganhar dinheiro na China?

Boxing Day

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O distinto leitor sabe o que, no mundo do futebol, significa a expressão Boxing Day? O termo refere-se à tradicional e insana maratona de jogos do campeonato inglês nos últimos dias do ano. Os times jogarão 3 partidas em 6 dias: 26 ou 27 de dezembro, 29 ou 30 de dezembro e 01 ou 02 de janeiro.

A Trivela entrevistou Andrew Young, preparador físico do Fulham, que fala sobre as consequências desta maratona nos jogadores. Passem e dêem uma lida. Vou pescar apenas uma frase da matéria, do ex-jogador Gary Lineker, questionado sobre o que achava do Boxing Day: "É a oportunidade de sair de casa farto de aguentar as sogras, tomar uma cerveja e ver futebol. O paraíso deve ser uma coisa assim".

Medo

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

O nível do Rio Paraíba do Sul está perigosamente alto. Apesar dos que dizem que uma enchente como a do início deste ano não acontecerá de novo tão cedo tenho medo que cenas como estas se repitam.

"Quando a gente fica em frente ao mar/ A gente se sente melhor"

Passei a manhã de Natal na praia com os moleques. Difícil achar coisa melhor que isso.

"Quando a gente fica em frente ao mar/ A gente se sente melhor"


(o título deste post é uma citação da música A Letra A, do Nando Reis)

"A casa pode pegar fogo"

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

É impossível fingir que está lendo um livro. Seus olhos irão traí-lo. Assim como sua respiração. Uma pesssoa fascinada por um livro simplesmente se esquece de respirar. A casa pode pegar fogo, e o leitor mergulhado num livro só erguerá os olhos quando o papel de paredes estiver em chamas.


Contracapa de minha atual leitura, O Sr. Pip, de Lloyd Jones (a tradução é de Léa Viveiros de Castro).

Costuma acontecer bastante comigo isso. Estou lendo num restaurante, com pessoas em volta e de repente um conhecido fala comigo e eu nem percebo.

Ao vivo do shopping

Leitores, por favor informem-me: como estão as reportagens sobre as maravilhosas tradições gastronômicas do Natal? E as matérias sobre as compras de última hora? Em momentos como esse eu percebo que minha decisão de abandonar a TV aberta valeu totalmente a pena. A Sky é um luxo meio caro, mas não imagino minha vida sem ela.

Tarados!

domingo, 23 de dezembro de 2007

O Flickr disponibilizou uma página para que seus usuários pro possam acessar estatísticas referentes à suas contas. Pois bem, eis que com estas estatísticas pude comprovar a força dos tarados da web. As pouquíssimas fotos que postei de Arlene amamentando são disparadamente as mais visualizadas. Vejam só aí embaixo:

A força dos tarados


Ultimamente tenho postado poucas fotos lá, mas isso vai mudar: estou comprando uma nova câmera bem bacana, e começando um cursinho de fotografia da National Geographic.

Navegando

Mais do que respostas, os tempos atuais trazem novos questionamentos. Mas o sentimento geral, até entre os maiores críticos da internet, é que o aumento de quantidade na oferta de produtores de cultura traz mais aspectos positivos do que negativos. Marcelo Forlani, jornalista paulista que, após trabalhar nos sites da 89 FM, Abril Jovem e AOL Brasil, se dedica exclusivamente ao Omelete, página de cultura pop há mais de sete anos no ar e acessada mensalmente por 700 mil visitantes únicos, afirma: "Da quantidade se tira a qualidade. Com a internet, não há um agente limitador. Não ficamos mais restritos ao que sai no jornal, toca no rádio ou passa na TV". E complementa: "Com os sites das bandas e serviços que indicam produtos por semelhança, como uma Last.fm, vivemos uma realidade em que apenas uma coisa pode nos parar: a falta de interesse por descobrir coisas novas. É comum 'perder' horas vendo fotos de pessoas que não conhecemos num Flickr, ou assistindo a vídeos no YouTube. Os trabalhos que apreciamos são rapidamente enviados para os amigos, salvos nos del.icio.us da vida, enfim, compartilhados. O que é bom tem hoje muito mais chance de ser pulverizado por aí e se tornar conhecido por muita gente".

Trecho deste texto do Inagaki. Passem lá e leiam tudo. E visitem também o Pensar Enlouquece, Pense Nisso, consagrado blog do Ina.

Pensamento para alegrar o seu dia

Segue aqui, caro leitor, um pensamento que, creio, alegrará seu dia, especialmente nesta época do ano, quando questões religiosas são muito debatidas:

A vida é uma estrada esburacada, que começa no nada e termina no nada.

(Retirado de minha leitura atual: Bóris e Dóris, de Luiz Vilela)

Arsenal 2 x 1 Tottenham


Aqui no Brasil o futebol anda meio triste não apenas pelo êxodo de nossos melhores jogadores, mas também pela contribuição dos técnicos e seus sistemas de jogo feio e faltoso. Os jogos do futebol brasileiro são sempre truncados, com faltas a cada 2 ou 3 minutos (ou menos).

Isso me leva ao jogo de ontem que dá título a esse post, disputado pelo Campeonato Inglês. Foi um futebol corrido, lá e cá, bonito de se assistir. Ao final do 1º tempo haviam sido assinaladas apenas 8 faltas, 6 do Arsenal e 2 (!!!) do Tottenham. Por aqui essa quantidade de faltas aconteceria em mais ou menos 15 minutos (se fosse um clássico tenso como Vasco x Flamengo, provavelmente seria em 10). Infelizmente não peguei os números do final do jogo, mas pelo que pude ver o 2º tempo também teve pouquíssimas faltas.

O time do Tottenham está longe de ser um timaço de futebol. Conta com alguns bons valores como Robbie Keane e Dimitar Berbatov (respectivamente autores da bela assistência e do belo gol do time ontem), mas acabou de passar por uma mudança de técnico, e o que chegou ainda está procurando a melhor maneira de fazer o time jogar. Mas é bom saber que truncar o jogo, fazer falta atrás de falta não faz parte de sua postura.

Quanto ao Arsenal, é um time muito jovem, leve, de alta velocidade, e muito bem treinado por Arsène Wenger. Com a saída de Thierry Henry (que foi para o Barcelona no início desta temporada), eu cravei (assim como a maior parte dos analistas esportivos) que o time ia conseguir no máximo um quarto lugar (se suasse bastante a camisa). Pois em uma belíssima surpresa a equipe está liderando há muitas rodadas o campeonato e parece que a disputa pelo título já ficou restrita entre eles e o Manchester United. Cesc Fàbregas, de apenas 20 anos, está liderando o time com um belíssimo futebol que já o credencia, se seguir jogando assim, como um dos postulantes mais sérios ao título de melhor jogador de 2008.

Está chegando aquela época do ano

sábado, 22 de dezembro de 2007

As festas de fim-de-ano estão chegando. E com elas meu tradicional post de "Odeio o Natal" (vide ano passado).

O que mais me chateia é o comercialismo dessas datas. São simplesmente oportunidades para os comerciantes, sejam pequenos ou grandes, acabarem com seus estoques de produtos. Eu acharia bem legal se essas datas, especialmente o Natal, fossem simplesmente um momento de juntar toda a família, comer uma comida legal, conversar sobre a vida e mostrar fotos das crianças. Mas tudo se baseia em comprar presentes presentes e mais presentes. Fica impossível andar (seja de carro ou a pé) pelo centro das cidades, as pessoas ficam nervosas, as filas ficam enormes.

Bem, de qualquer forma deixo aqui meu voto de Boas Festas a todos os meus milhões de leitores.

Mais NBA

Essa é uma caixinha para acompanhar os últimos resultados da liga:

Round 1... Fight!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Quem, como eu, passou horas e horas e horas e mais horas e mais algumas horas jogando Street Fighter II no fliperama lá no início dos anos 90, vai adorar esses vídeos:





Campeão

domingo, 16 de dezembro de 2007

Milan campeão mundial. Dessa vez, ao contrário dos dois torneios anteriores, o sulamericano não prevaleceu. O Milan entrou bastante determinado, e o Milan tem Kaká. E Kaká facilita as coisas. Com ele o Milan não se torna um time invencível, mas um time que só pode ser batido se o adversário demonstrar uma aplicação muito grande de seus jogadores, e o Boca não mostrou isso.

Inesquecível

sábado, 15 de dezembro de 2007

A Estrada foi um livro arrasador. Não se trata de um livro fácil, mas é uma leitura necessária, assim como a vida não é fácil mas aqui estamos nós vivendo-a.

Um pai e seu filho (um garoto de uns 10 anos) lutam contra a terra destruída (não se menciona claramente o motivo, apenas algo sobre uma chuva de fogo), onde não existe quase nada, além de umas poucas ruínas. Eles vagam desesperadamente na direção sul, pois lá talvez seja mais quente. Só isso. Na estrada eles deparam-se com algumas construções de onde conseguem extrair alguma comida (mas passam dias sem comer), passam por noites de um frio terrível e uma escuridão inimaginável (não se consegue enxergar a mão bem à frente do olho) e com algumas cenas que dão nó no estômago do leitor (as coisas que alguns dos poucos sobreviventes fazem para se alimentar e sobreviver).

Pode-se dizer que é um livro sobre paternidade, e eu, pai de 2 molequinhos, me identifico muito com isso. Um livro sobre o que é ser pai, e até onde se é capaz de chegar por seu filho.

Inesquecível.

NBA

Caixinha de vídeo com os melhores momentos do dia da NBA (hoje em dia vejo pouco, mas já houve tempos em que eu ficava até de madrugada acompanhando as jogadas da liga):

Tortura

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Na terça de tarde fui a uma consulta com o otorrino (ainda o problema mencionado neste post, meu ouvido direito estava completamente entupido e está melhorando aos pouquinhos). Bem, meus caros, meu conselho é que as pessoas que tenham a infelicidade de se consultar com um otorrino pelo mesmo motivo que eu têm que estar preparadas para o pior. A consulta consiste no doutor querendo saber qual o seu problema, e quando descobre que trata-se da situação no ouvido, abre uma gaveta e pega uma barrinha de metal dobrada em L e com uma ponta bem afiada. Você começa a se desesperar pensando "não, por favor, ele não vai enfiar esse troço no meu ouvido" até que BAM! ele enfia o negócio no seu ouvido e diz "me avise se estiver doendo". Porra!, é claro que está doendo prá cacete, e aí sua cabeça, num reflexo, se vira, e o troço espeta ainda mais em você. Ao final, ele retira o negócio com um bocado de cera na maldita ponta, receita um remédio para gotejar e diz para voltar em uma semana. Bem, eu vou comprar o remédio e gotejá-lo, mas creio que nunca mais vou visitar esse torturador (seria um ex-membro do DOI-CODI?).

Esquecer e lembrar

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Em uma terra destruída, cheia de cinzas, um homem e seu filho caminham em direção ao sul para tentar se aquecer. Apenas isso, duas pessoas tentando sobreviver após algo indefinido ter devastado quase completamente o mundo. Isso é A Estrada, livro poderoso que estou lendo no momento. Segue um trecho (a tradução é de Adriana Lisboa):

Atravessaram a cidade ao meio-dia do dia seguinte.O revólver estava à mão na lona dobrada por cima do carrinho. Mantinha o menino bem perto, ao seu lado. A cidade estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto der cinzas e poeira. Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou. Você talvez queira pensar sobre isso.

Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?

Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

Campeonato Mundial Não-Oficial de Futebol

Você sabia que a Grécia é a atual campeã mundial de futebol? Pelo menos no Campeonato Mundial Não-Oficial de Futebol (UWFC). Funciona como no boxe, cada vez que o atual campeão mundial enfrenta alguém o título está em jogo. Os resultados contam desde o 1º jogo entre seleções da história (Escócia 0 x 0 Inglaterra, no dia 30/11/1872, em Glasgow). A 1ª campeã foi a Inglaterra, que no 2º jogo entre seleções bateu a Escócia por 4 a 2 no distante 08/03/1973, em Londres.

A seleção que mais vezes ficou com o título foi a Escócia, com 86 vitórias nas disputas. Esse resultado meio bizarro deve-se ao fato de que no final do século 19 e início do 20 apenas os países britânicos jogavam futebol entre si, o esporte ainda não havia se popularizado.

O Brasil está em sexto nesse ranking, com 29 conquistas (a Argentina está em 3º, com 49).

Segue o ranking de conquistas, atualizado até 08/09/2007 (em inglês, depois eu traduzo):

1 SCOTLAND 86
2 ENGLAND 74
3 ARGENTINA 49
4 RUSSIA 41
5 NETHERLANDS 32
6 BRAZIL 29
7 GERMANY 27
7 ITALY 27
9 FRANCE 25
9 SWEDEN 25
11 HUNGARY 16
11 URUGUAY 16
13 CZECH REP 15
13 SPAIN 15
15 AUSTRIA 12
15 WALES 12
17 CHILE 11
18 SWITZERLAND 10
19 COLOMBIA 8
19 ROMANIA 8
21 ANGOLA 7
21 PARAGUAY 7
21 PERU 7
21 ZIMBABWE 7
25 BULGARIA 6
26 BELGIUM 5
26 BOLIVIA 5
26 COSTA RICA 5
26 GREECE 5
26 N IRELAND 5
26 YUGOSLAVIA 5
32 NIGERIA 4
32 POLAND 4
34 DENMARK 3
34 REP IRELAND 3
36 ECUADOR 2
36 GEORGIA 2
36 PORTUGAL 2
36 USA 2
40 AUSTRALIA 1
40 ISRAEL 1
40 MEXICO 1
40 N ANTILLES 1
40 S KOREA 1
40 VENEZUELA 1

Nova leitura

domingo, 9 de dezembro de 2007

Vou agora me embrenhar no texto característico do Cormac McCarthy e sua inusitada aversão por vírgulas: A Estrada.

Por um fio

A exemplo de seu livro anterior, Estação Carandiru, este também trata de histórias vividas pelo doutor Drauzio ao longo de sua carreira médica. Desta vez o foco são doentes que se aproximam bastante da morte, doentes cujas vidas pendem por um fio, doentes os quais o doutor, claro, tenta curar, mas para os quais também, quando torna-se impossível a cura, tenta levar conforto a seus últimos momentos de vida.

Um trabalho duríssimo, mas que realiza plenamente o médico. Queria sentir pelo meu trabalho pelo menos a metade do que ele sente pelo dele.

Minha aventura na estrada

Eis que do nada resolvi que hoje queria passear de carro, pegar um pouco de estrada com a patroa e as crianças. A idéia era ir até Macaé, um pouco menos de 2 horas de viagem. Tudo indo bem, a direção bem gostosa com o som e o ar-condicionado ligados. De repente um estouro e o carro se inclina todo para a traseira do lado do motorista. Consegui, com sangue-frio, colocá-lo no acostamento e ao sair vi o pneu caído um pouco mais para trás. As antas que me venderam o carro não devem ter apertado direito as porcas do pneu e eu poderia perfeitamente ter causado um grave acidente, era só ter me desesperado um pouco e virado o carro para o lado errado.

Por sorte (se é que se pode falar em sorte numa situação com essa) paramos quase em frente a uma dessas borracharias de beira de estrada. Eles colocaram o pneu de volta e conseguimos voltar para Campos sãos e salvos. Baita susto.

O retorno ao trabalho

O trabalho foi até divertido. Claro que é melhor ficar em casa, mas ter um objetivo definido para suas ações é algo que tem seu valor, e minhas férias costumam ser épocas em que faço quase nada, são momentos de pouca objetividade.

É claro que daqui a alguns dias não estarei nem aí para a tal objetividade e resmungarei desesperado "preciso de férias!".

Hoje

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

É hoje. Apesar do que disse em meu post anterior, não fiz nada de útil. Bem, pelo menos a volta ao trabalho hoje em dia não é a mesma tensão, choro e depressão que era quando eu tinha a minha antiga função no banco. Agora volto um pouco relaxado.

Acabando

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Últimos dias de férias. Na sexta-feira volto ao batente. Tentarei fazer algo de útil, já que tenho a sensação de que não aproveitei bem esse período.

Corinthians rebaixado, Vasco coadjuvante sem brilho

domingo, 2 de dezembro de 2007

Se me dá prazer em ver o Corinthias rebaixado? Na verdade não. Mas rola o sentimento de que foi merecido. O time fez uma campanha patética, com apenas 10 vitórias em 38 jogos e um time cheio de nulidades que não seriam capazes de lustrar as chuteiras dos bicampeões de 98 e 99.

Só que como torcedor vascaíno não devo ficar me preocupando com o sofrimento de outras torcidas, pois o meu time já dá muitos motivos de preocupação (perdemos o mesmo número de jogos dos corinthianos, 14, só que ganhamos 5 a mais - campanha um pouco menos patética). Nos últimos anos, apenas neste ano e no ano passado o rebaixamento não foi um fantasma (chegamos, agora em 2007, a ficar levemente preocupados, mas eram possibilidades meramente matemáticas).

Se o Corinthians sobe ou não sobe na próxima temporada é algo que me é indiferente. O que eu quero é que essa diretoria podre que cuida do meu time tenha pelo menos a noção de que para fazer um bom time de futebol é preciso dinheiro, para ter dinheiro é preciso atrair anunciantes, e para atraí-los é necessário pelo menos parecer um clube moderno, com gestão transparente e menos ditatorial.

Revisitando o passado

Estou dando uma olhadinha em coisas que escrevi anos atrás. Segue aí um texto que escrevi para o iVox sobre o filme Beleza Americana.

"Meu nome é Lester Burnham. Este é meu bairro. Esta é minha rua. Esta é minha vida. Em menos de um ano eu estarei morto. É claro que não sei disto ainda. De certa maneira, eu já morri". Este marcante monólogo dá início a esta história aparentemente banal passada num daqueles famosos subúrbios dos EUA, onde mora a família que projeta uma imagem de felicidade formada por Lester e Carolyn Burnham. Mas atrás das portas nada é o que parece. Lester está cansado de sua vidinha trabalhando durante décadas num cubículo para uma revista de marketing; de sua mulher neurótica e aparentemente frígida; do silêncio entre ele e sua filha Jane; enfim, de tudo.

É nesse contexto sem solução que Lester conhece Ângela, uma líder de torcida linda, loira e amiga de sua filha, que motivará suas mudanças, além do vizinho estranho Ricky, que lhe venderá maconha. A partir daí Lester abandona o emprego (subornando seu chefe para que lhe pague uma alta quantia, o que mostra que Lester não é nenhum santo, apenas um homem que chegou ao seu limite), começa a fumar maconha, a malhar, ouve Led Zeppelin e arranja emprego em uma loja de fast food (por achar que é um trabalho "com responsabilidade quase zero"), sempre delirando com a figura de Ângela.

Os personagens perdedores e extremamente ligados ao valor das aparências são o trunfo do filme, como Lester, cínico e gozador (Kevin Spacey está realmente incrível, há muito tempo eu não via uma atuação tão sensacional); sua esposa fútil Carolyn; a filha Jane, uma adolescente tímida e insegura; o vizinho Ricky (que fornece a maconha), um voyeur que se apaixona por Jane; e Ângela, uma adolescente atirada do tipo dou-pra-todo-mundo-e-quero-que-todos-saibam, a qual reserva um segredinho para o final.

Beleza Americana é um filme belo porque se preocupa com as pequenas coisas da vida, as quais são as mais importantes. Tem os seus defeitos, como os "alívios cômicos", que são concessões para tornar o filme mais palatável. Tudo cheira a ironia, inclusive o título, que se refere a uma flor homônima assim chamada por não ter nem cheiro nem cor, ou seja, ser vazia.

Calcio

Em 1995, ano em que cursei minha oitava série no finado Colégio P.A., um colega de classe, o enciclopédico Vítor Hugo, me apresentou ao futebol internacional, falando-me de sua paixão pelo futebol italiano, o calcio.

O primeiro jogo que vi foi um Milan x Parma sonolento, que terminou em 0 a 0. Diz o Vítor (e eu acabo de confirmar na Wikipedia) que este foi o primeiro jogo como profissional da carreira do grande Gianluigi Buffon, atualmente o melhor goleiro do mundo.

Tudo isso para dizer que ontem acompanhei (ainda que não ao vivo, mas aproveitando-me dos recursos de meu Sky+) Milan 0 x 0 Juventus. Foi um bom jogo, mas acho que não dou sorte com os italianos. Quero dizer, é claro que acompanhei alguns bons jogos (como um sensacional Roma 4 x 0 Juventus na temporada 2003/2004) mas de vez em quando, no momento em que estou cheio de expectativas (ou pelo menos com vontade de ver um monte de gols), eis que me aparece um 0 a 0. Foi assim naquele distante primeiro jogo, foi assim no jogo de ontem (com o mesmo Buffon presente, mas dessa vez defendendo a Juve) e foi assim naquela decisão da Uefa Champions League da temporada 2002/2003, em que os mesmos Milan e Juventus empataram por esse mesmo placar (os rossoneri levaram nos pênaltis, com méritos para Dida, que pode dizer que em pelo menos um dia ele foi melhor que Buffon).

Nos últimos anos o Campeonato Italiano decaiu nas minhas preferências, estando agora atrás do Inglês e empatado com o Alemão (o Espanhol, apesar do Real Madrid e do Barcelona até hoje não me seduz). Mas ainda tem seus bons momentos, como a expectativa por um jogo da estatura de Milan x Juventus, dois dos clubes mais lendários do futebol mundial.

O iPod dos livros

A Amazon.com está lançando o Kindle, um aparelho que, se pegar, pode fazer pelos livros o que o iPod fez pela música: colocar uma quantidade violenta de informação ao alcance da mão. Sei que já houve outros e-books antes, mas este tem umas funcionalidades bem bacanas, como a compra de livros diretamente pelo site da Amazon (por preços bem mais baratos que os livros de papel e sem que se pague pelo acesso à internet) e a possibilidade de fazer um assinatura de vários jornais, recebendo-os diretamente no aparelho para ler durante o dia. Dêem uma olhada no vídeo abaixo:



Só é necessário agora fazer uma versão brasileira do aparelho, com acesso a uma livraria daqui (com livros em português - será que nossas editoras vão topar?) e disponibilização dos nossos jornais.

Livros comprados no Rio

sábado, 1 de dezembro de 2007

Esqueci de fazer menção aos dois livros que adquiri na Saraiva do NorteShopping, durante minha visita à minha terra natal:

- As Benevolentes, de Jonathan Litell. O mastodôntico (912 páginas) livro sobre as memórias de um ex-oficial nazista.

- A Estrada, de Cormac McCarthy. Vencedor do prêmio Pulitzer no ano passado, este é uma virada na literatura de McCarthy, sempre centrada na fronteira dos Estados Unidos com o México, mas dessa vez tratando de um futuro distante (ou será que próximo?) em que algo destruiu quase todos os seres humanos, e os poucos que sobraram lutam para sobreviver. Será que essa mudança de cenário prejudicará a prosa sempre estupenda dele? A conferir.

E como agora estou devendo até as cuecas por causa do carro novo, vou fazer um esforço sobre-humano para tentar não comprar livros novos durante um tempo, pelo menos nesse mês de dezembro, depois eu vejo até quando consigo.

Experimentando a Literatura Brasileira

Como parte do meu esforço em me atualizar sobre a literatura brasileira contemporânea, na semana que se encerra hoje li dois novos autores: Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, de Marcelo Mirisola e O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca.

Do primeiro não gostei. Uns contos estranhos, em que nada acontece, apenas um jorro de palavras com frases muitas vezes incompreensíveis. Podem me chamar de careta mas eu realmente gosto de frases tradicionas, com sujeito e predicado. Gosto de narrativas.

Do segundo gostei um pouquinho. Escrito num tom elegante. Mas um tantinho vazio, sem muito a dizer. Além disso, li suas últimas trinta páginas já acometido pelo mal descrito dois posts atrás (que, a propósito, não sei o que era, já que não fui ao médico), e não prestei a devida atenção.

Vou seguir lendo um autor brasileiro, mas dessa vez não um escritor profissional, mas um médico compartilhando algumas de suas experiências: Por um Fio, de Dráuzio Varella. Há muitos anos atrás li seu Estação Carandiru e adorei, vamos ver se o mesmo se repete com este.

Seguindo o toque (não confundir com exame de próstata) que o Rafael me deu em um comentário a este post, vou tentar lê-lo um pouco mais lentamente, inclusive fazendo anotações para talvez escrever algo decente sobre ele por aqui.

Carro (mais-ou-menos) novo

A doença mencionada no post anterior me derrubou mesmo. Foram dois dias horríveis (anteontem e ontem) e um melhorzinho (hoje). Nesse meio tempo comprei (ou melhor financiei em 60 meses) um carro novo. Bem, "novo" não é a palavra. Digamos "menos velho". Meu velho Escort era 96/97, meu Escort mais atual (modelo Wagon, com uma bundona) é 2001. Detalhe: mantive o outro (para minha senhora poder levar o moleque mais velho à escola no ano que vem). Provavelmente não vai dar prá ficar com os dois por muito tempo (a prestação é violenta), mas por enquanto eu posso dizer que sou um cara fudidaço, mas tenho dois carros.

Velho e emotivo

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Acordei um lixo hoje. Um de meus ouvidos estava meio que entupido, como se eu tivesse passado a noite mergulhando numa praia. Uma narina entupida e cheia de sangue coagulado. Minha cabeça doendo horrores.

Agora há pouco assisti ao filme Click. Comecei com poucas expectativas: apenas mais uma comédia com Adam Sandler. Mas da metade em diante o filme começa a ficar dramático e eu me identifiquei um pouco com o personagem do Sandler. Não que eu prefira o trabalho à família, mas várias outras coisas acabam me desviando dela. Bem, amo meus filhos e minha mulher e não quero desperdiçar minha vida. Acho que estou ficando meio velho e emotivo.

Triste

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Flamengo está garantido na Libertadores do ano que vem. Puxa, que tristeza! O Vasco deu a impressão de que conseguiria com facilidade, mas de repente tudo começou a dar errado. E tudo começou a dar certo para eles.

Bem, sem a Libertadores creio que no ano que vem nós vascaínos teremos que nos conformar com mais um time medíocre.

Petit Finale

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Acabei de ler O Invasor, aquele livro que estava mutilado (arranjei um exemplar inteiro dele). Não sei como justificar isso com palavras, mas o fato é que não gostei do final do livro. Acho que vinha sendo bem desenvolvido (apesar da história não ser essa maravilha toda) mas me parece que o autor não sabe como encerrar um livro (ou ao menos não sabia quando escreveu este).

Muitos livros têm finais fracos apesar de serem legais. Às vezes me parece que os acontecimentos finais são meio improvisados como se o autor não soubesse como iria terminar mas a editora pressionasse por um ponto final na história. Lembro-me do (ótimo) filme Garotos Incríveis, em que o personagem do Michael Douglas já havia escrito mais de duas mil páginas de seu livro, uma vez que não conseguia terminá-lo.

Chuva

Chuva prá cacete. Chuva prá encher meu pequeno quintal. Chuva para inundar de esgoto minha cozinha, meus banheiros e minha área de serviço. Chuva. Merda de chuva.

Por que sempre que estou de férias o tempo fica horroroso desse jeito?

Intoxicado

Já retornei desde ontem, mas só agora juntei um pouco de coragem para encarar o teclado. O Rio é uma cidade intoxicante. Cada vez que vou até lá aumenta o meu pânico de multidão, e sempre que volto parece que desaparecem de minha mente todas as minhas constantes críticas à cidade de Campos dos Goytacazes. O trânsito daqui, que tanto me estressa no dia-a-dia, parece o trânsito de domingo de lá. Tanta gente, tanta coisa, tudo tão grande. Acho que nunca vou conseguir voltar a morar lá.

4 horas sem tirar

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Amanhã lá pelas 5 da manhã iniciarei uma maratona automobilística rumo ao Rio de Janeiro. Só espero que o carro não me deixe na mão.

No máximo segunda-feira estarei de volta para encantá-los com meus líricos posts.

Profanação

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Neste momento meu moleque mais velho está de cama, com febre, devido a problemas na garganta. A senhora minha esposa pretende invadir o pavilhão reto-furicular dele com um supositório. Bem, eu sei que é para que ele melhore, mas não consigo achar isso normal. Trata-se de uma profanação à inocência do ser humano masculino.

Carro idiota

É isso então. Para qualquer defeito que o carro dê devo me preparar para desembolsar no mínimo R$ 500,00 (dessa vez foram R$ 750,00). Chega! Vou arranjar um carro zero quilômetro. Pelo menos o valor que eu gasto com mecânicos seria melhor investido pagando as prestações de um carro muito melhor que o meu e que nunca irá dar defeito.

Velhice chegando

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Nessa minha maratona de releitura de Harry Potter aconteceu algo engraçado: do 5º livro, que li em 2003, não me lembrava de nada. Quase nada. 95% foi novidade para mim. Só lembrava mesmo de quem morre no final do livro (lembro-me, inclusive, de que isso era o chamariz do livro na época: "importante personagem morre ao final do livro. Quem será?"). Quanto ao 6º livro, que li em 2005, me lembrei de só um tiquinho a mais. Digamos que 85% do livro foi totalmente novo para mim.

Como é possível que eu não me lembre de nada de livros que li há relativamente pouco tempo. Quer dizer então que dessa montanha de livros que ando lendo atualmente eu não me lembrarei de nada em 2 anos? Puxa, confesso que isso me surpreendeu, pensei que iria reler esses livros para refrescar a memória a respeito de alguns detalhes, tipo 20% dos livros. Será que é a velhice chegando? Se for, está chegando um pouco cedo.

Caminhão de livros novos

Vou precisar de uma estante nova, pois nesses últimos dias chegaram 21 novas aquisições para a minha biblioteca. Desses 21, 16 foram comprados por R$ 5,00 no sebo da LivrariaDoCrime. Os outros vieram pelo Submarino. Vamos a eles:

Livros da LivrariaDoCrime

- 4 de John Grisham: A Confraria, A Intimação, O Corretor e A Firma. Sei que essa literatura de advogados não é um exemplo de qualidade, mas não deixa de ser divertida.

- 4 de James Lee Burke: Negro e Amargo Blues, Ferrovia do Crepúsculo, O Coração da Floresta e Perversão na Cidade do Jazz. Nunca li nada desse autor, mas parece-me que são boas histórias.

- 2 de James Ellroy: Sangue na Lua e Noturnos de Hollywood. Também nunca li nada dele, mas seu trabalho é sempre elogiado.

- 2 de Rubem Fonseca: O Buraco na Parede e A Confraria dos Espadas.

- 1 de Dennis Lehane: Um Drink Antes da Guerra. Gosto do Lehane e esse aqui parece ser o livro de estréia de sua mais recorrente dupla de detetives.

- 1 de George Pelecanos: Revolução Difícil. Nada sei sobre este autor, mas gostei do tema do livro.

- 1 de Rex Stout: Mulheres Demais. Não gostei muito do livro dele que li, mas vou dar outra chance.

- 1 livro de José Saramago: O Homem Duplicado. Único autor de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel, Saramago é sempre uma leitura complicada, com seus parágrafos gigantescos, mas gostei do tema desse livro.

Livros do Submarino

- O Sr. Pip, de Lloyd Jones. Concorreu ao Booker Prize deste ano. Pelas resenhas parece-me que se trata de um grande livro.

- Bóris e Dóris, de Luiz Vilela. Concorrente da Copa de Literatura Brasileira (eliminado nas quartas-de-final), faz parte da minha idéia de me aproximar da literatura brasileira contemporânea (assim como os próximos 3 livros).

- O Dia Mastroiani, de João Paulo Cuenca. Nunca li nada dele, mas tenho vontade de conhecer seus escritos.

- Fátima Fez os Pés Para Mostrar na Choperia, de Marcelo Mirisola. Falam muito bem dele, então também quero dar uma olhada no que ele escreve.

- A Canção do Mago, de Hérica Marmo. Livro sobre a trajetória musical de Paulo Coelho. Um tema interessante.

Novo template

domingo, 18 de novembro de 2007

Não ficou tão bonito como eu achei que ficaria ao deparar-me com o modelo, mas gostei do melhor aproveitamento do espaço (afinal em 1024x768 sempre ficavam aquelas barras laterais inúteis)

Alteração

Template sendo alterado. Se as coisas estiverem estranhas, volte mais tarde.

Fim

sábado, 17 de novembro de 2007

Acabou. Depois de sete livros e 3283 páginas terminei a saga de Harry Potter. Bate uma certa tristeza afinal esses livros vêm me acompanhando desde o ano 2000, quando li o primeiro. Tanta coisa aconteceu nesse meio tempo... Bom, só posso dizer que adorei as 7 leituras.

Metamorfose capilar

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O editor deste blog alguns dias atrás passou por um complexo processo de metamorfose capilar. Não acredita? Aí vão as fotos para provar:

Metamorfose capilar (antes)

Metamorfose capilar (durante)

Metamorfose capilar (depois)

Procura-se

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Ando sumidaço daqui, hein! E não há nenhuma justificativa para isso; na verdade, deveria estar por aqui bem mais constantemente do que o normal, pois desde o dia 7 estou de férias. E não estou aproveitando nada, fazendo nada de diferente. Simplesmente passo o dia quase todo entre computador e livros. Mas agora que contei que estou à toa, não vai dar prá ficar muito ausente daqui.

"O lar do passarinho é o ninho/ E não o ar"

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Então para encerrar esse assunto que já encheu o saco (minha vontade de deixar o Brasil), vai aí uma letra muito boa do Gabriel O Pensador:

Brasa
Gabriel O Pensador

Um poeta já falou, vendo o homem e seu caminho:
"o lar do passarinho é o ar, e não o ninho".
E eu voei... Eu passei um tempo fora, eu passei um tempo longe.
Não importa quanto tempo, não importa onde.
Num lugar mais frio, ou mais quente de repente, onde a gente é esquisita, um lugar diferente.
Outra língua, outra cultura, outra moeda.
É, vida dura mas eu sou duro na queda.
Se me derrubar... eu me levanto, e fui aos trancos e barrancos, trampo atrás de trampo, trabalhando pra pagar a pensão e superar a tensão do pesadelo da imigração.
Clandestino, imigrante, maltrapilho.
Mais um subdesenvolvido que escolheu o exílio, procurando a sua chance de fazer algum dinheiro, no primeiro mundo com saudade do terceiro.
Família, amigos, meus velhos, meu mano - o meu pequeno mundo em segundo plano.
Eu forcei alguns sorrisos e algumas amizades.
Passei um tempo mal, morrendo de saudade.
(Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade.
Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...)
Da beleza poluída, da favela iluminada, do tempero da comida, do som da batucada.
Da cultura, da mistura, da estrutura precária.
Da farofa, do pãozinho e da loucura diária.
Do churrasco de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali dormindo, o coroa aposentado.
(Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...)
Da mulata oferecida, do pagode malfeito, de torcer na arquibancada pro meu time do peito.
A pelada sagrada com a rapaziada, o sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa malícia, da batida de limão, da gelada que delícia!
(Eu tô morrendo de saudade, tô morrendo de saudade...)
Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral.
Do calor humano, do fundo de quintal.
Do clima, da rima, da festa feita à toa - típica mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro e da cor.
E do nosso jeito de fazer amor.

Agora eu sou poeta, vendo o homem a caminhar:
o lar do passarinho é o ninho, e não o ar.
E eu voltei. E eu passei um tempo bem, depois do meu retorno.
Eu e minha gente, coração mais quente, refeição no forno.
Água no feijão, tô na área, bichinho.
Se me derrubar... eu não tô mais sozinho.
Tô de volta sim senhor.
Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.
Mas o amor é cego.
Devo admitir, devo e não nego, que aos poucos fui caindo na real, vendo como o Brasa tava em brasa, tava mal.
Vendo a minha terra assim em guerra, o meu país... não dá, não dá pra ser feliz.
E bate uma revolta, e bate uma deprê.
E bate a frustração, e bate o coração pra não morrer.
Mas bate assim cabreiro.
Bate no escuro, sem esperança no futuro, bate o desespero.
Bate inseguro, no terceiro mundo, se for, com saudade do primeiro.
Os velhos, os filhos, os manos - ninguém aqui em casa tem direito a fazer planos.
Eu forcei alguns sorrisos e lágrimas risonhas.
Passei um tempo mal, morrendo de vergonha.
(Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha.
Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...)
Da beleza poluída, da favela iluminada, da falta de comida pra quem não tem nada.
Da postura, da usura, da tortura diária.
Da cela especial, da estrutura carcerária.
A chacina de domingo, o rateio e o fiado, a criança ali pedindo, o coroa acorrentado.
(Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...)
Da mulata oferecida, do pagode malfeito.
Morrer na arquibancada pro meu time do peito.
O salário suado que não serve pra nada, o sorriso desdentado na rodinha de piada.
Da malandragem, da nossa milícia, da batida da PM, porrada da polícia.
(Eu tô morrendo de vergonha, tô morrendo de vergonha...)
Do jornal lá na banca, da notícia pra ler, das garotas de programa dos programas da TV.
Do jeitinho, do improviso, da bagunça geral, do sorriso mentiroso na campanha eleitoral.
Do clima de festa, da festa feita à toa - ridícula mania de levar tudo na boa - do contato, do mato, do cheiro da carniça.
E do nosso, jeito de fazer justiça.
Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa, casa do meu coração.
Mas eu vou ficar no Brasa porque o Brasa é minha casa e a minha casa só precisa de uma boa arrumação.
Muita água e sabão.
Ensaboa, meu irmão.
Não se suja não.
Indignação.
Manifestação.
Mais informação.
Conscientização.
Comunicação.
Com toda razão.
Participação.
No voto e na pressão.
Reivindicação.
Reformulação.
Água e sabão na nossa nação.
Água e sabão, tá na nossa mão.
(Tô morrendo de paixão, tô morrendo de paixão...)

Na Suécia

domingo, 4 de novembro de 2007

Ainda sobre o tema da Copa de 2014 no Brasil e meu desejo de ir embora do Brasil, a coluna dessa semana do Arthur Dapieve (novamente ele) é excelente:

O leite derramado
O copo d'água oxigenada com areia é nosso!

Carreguei a vergonha durante semanas, como um pária secreto, mas agora que estamos todos contentes com a Copa de 2014, agora que o Lula declarou que o brasileiro tem um “comportamento extraordinário”, agora que o Romário disse ter “orgulho de ser brasileiro”, agora que veremos, os que sobreviverem às estradas, aos tiroteios, às filas nos hospitais públicos, o país transformado num canteiro de obras, eu posso me confessar.

Tudo começou em meados de setembro, quando o presidente visitou a Suécia. Descobri, na ocasião, que as águas que separam os bairros centrais de Estocolmo são tão limpas que é possível pescar salmão ou truta, animais sensíveis, perto do Palácio Real. Descobri, ainda, que 600 dos 2.000 ônibus urbanos da capital sueca rodam com etanol brasileiro, muito menos poluente que o diesel habitual, habitual inclusive nas nossas ruas.

A correção ecológica fez com que os suecos tivessem inventado um jeito inédito de diminuir a quantidade de carros de passeio e, logo, de poluição. Não um mero rodízio pelo número da placa, que diminui apenas a quantidade num dado dia, mas não a absoluta, e sim cooperativas. Elas compram automóveis que os associados usam de acordo com suas reais necessidades particulares. Para ir ao trabalho, para fazer compras, para passear.

Funciona mais ou menos assim: os carros ficam estacionados em determinados pontos de Estocolmo; o associado que precisa de um deles telefona de seu celular para a cooperativa, passando o seu código pessoal e a placa do veículo; à distância, as portas são destravadas; as chaves ficam no porta-luvas; a pessoa liga o automóvel e faz o que quiser; quando termina de usá-lo, deixa-o estacionado em determinados pontos de Estocolmo; o associado que precisa etc... O valor da corrida paga manutenção e combustível.

Enquanto assistia a essa reportagem do correspondente da Rede Globo em Londres, Marcos Losekan, que acompanhou a viagem presidencial, eu não sabia se ria ou se chorava, imaginando uma coisa dessas instalada no Rio. Paradinhos em pontos determinados, com as chaves no porta-luvas, tais carros tornar-se-iam os alvos preferenciais dos ladrões.

Alguns até entrariam para a cooperativa só para depenar os veículos. Outros bandidos usariam os veículos para fazer “bondes” ou para desovar salmões, quer dizer, presuntos.

Isso, claro, sem mencionar a dificuldade que um motorista brasileiro teria de não ter o próprio automóvel, de dividi-lo com os demais cooperativados.

Logo ele, coitado, cria do país continental onde, desde um dos grandes erros de JK, a produção de carros particulares foi eleita a matriz do desenvolvimento nacional e a posse de um deles, o mais sagrado símbolo de status ou virilidade. Uma nação onde o pedestre pára para o carro passar. Uma mentalidade da qual é subproduto o atual presidente, exmembro da elite operária do ABC.

Tendo tido esses pensamentos terríveis, tão antipáticos, tão cruéis, eu me martirizei como um membro da Opus Dei, repetindo, como na propaganda, “o melhor do Brasil é o brasileiro, o melhor do Brasil é o brasileiro”.

Bem, até pipocar o escândalo do leite adulterado com soda cáustica e água oxigenada.

Que a qualidade do leite brasileiro é baixa, qualquer um que vá tomar um copo ali na esquina, na Argentina, pode há tempos atestar; mas que tais produtos químicos fossem adicionados por (ao menos) duas cooperativas beira o indizível. No meu código penal, seria crime hediondo contra crianças e idosos.

Mais um episódio do tão louvado jeitinho brasileiro, essa esperteza supostamente inata que consiste em saber botar no rabo alheio...

Como na inauguração do Engenhão entre Botafogo e Fluminense, em junho. Cada ingresso poderia ser trocado por uma lata de leite em pó. Teve torcedor que encheu a lata com areia. Desculpe-me, diante disso, não consigo reprimir o pensamento de que nunca superamos a condição de colônia de degredados.

Neste ponto, a etiqueta me obrigaria a fazer a ponderação de que quem age assim é uma minoria, que a maior parte do povo brasileiro é honesta e trabalhadora etc. Lembro-me, a propósito, de anedota contada por Stanislaw Ponte Preta em “Febeapá — O festival de besteira que assola o país”. Na década de 60, um colunista político, tão ou mais irritado que eu, escreveu que metade da Câmara de Vereadores de Fortaleza era composta por ladrões.

Diante da indignação geral, ele publicou desmentido no dia seguinte, dizendo que metade da Câmara de Vereadores de Fortaleza não era composta de ladrões. Enfim, tanto faz.

Mês passado, achei de rara justiça poética o lançamento da pré-candidatura de Oscar Maroni Filho à Prefeitura de São Paulo, pelo PTdoB, sigla que avacalha três outras.

Ele é dono da boate Bahamas e responde a processos por, entre outros crimes, favorecimento e exploração da prostituição. Quiçá um dia ele alcance o Planalto. Porque, na democracia, e precisamos aprender se quisermos de fato mudar alguma coisa, políticos não são diferentes de eleitores. Achar o contrário é cortejar uma ditadura, é clamar por mais um pai da pátria.

Lula é, sim, um homem do povo. Mas Renan Calheiros também é. Até o acadêmico Fernando Henrique é. A moralidade mutante do político nativo é igualzinha à do eleitor que enche a lata com areia para trocar por um ingresso de futebol. O resto é leite derramado.