domingo, 27 de fevereiro de 2005

Sono

Ainda tenho muitas dúvidas quanto a minha condição futura de bom ou mau pai, ou seja, o que meu filho, quando tiver discernimento para fazê-lo, vai achar de mim? Distante, legal, um chato, chiclete, companheiro, um merda? Mas no momento, nossa convivência tem sido legal, durante um pequeno pedaço das manhãs e meu retorno do trabalho de noite, além dos fins-de-semana. Só que há um momento em que percebo que sou um péssimo pai, um pai bundão.

Na noite em que ele nasceu (12 de janeiro de 2005, já faz um mês e meio...) eu fiquei acordado a noite toda (não se trata de força de expressão) velando seu sono, ouvindo seu choro, ninando-o, chamando enfermeiras para ajudarem-me; sua mãe estava acabada, deitada no soro, com uma sonda. Aquele foi um bom momento, um momento de um pai cuidadoso, uma prova do que eu seria capaz daí para frente, certo? Bem, o fato é que hoje em dia não é assim.

Todas as noites deito-me para dormir ao lado da sra. Andolini, amor de minha vida e bem próximo a mim deita-se o sr. Marco Antônio Andolini, outro amor de minha vida. Como acontece com todas as crianças deste mundo ele chora de madrugada, querendo que troquem sua fralda, dêem-lhe peito, andem com ele, amem-no. Só que de uns tempos para cá estas atividades têm ficado restritas a sua mãe, porque o pai-bundão muitas vezes sequer acorda, e quando o faz, apenas retira-o de seu leito e o repassa à mãe, dona dos poderosos peitos lácteos. E a mãe pede que o pai-bundão recoloque-o no leito, ande com ele, faça-o arrotar, converse com ele, troque sua fralda. E o pai-bundão dorme, dorme, dorme, resmunga, não faz nada, emite grunhidos, recusa sua condição sagrada de pai.

O sono - o maldito sono, o pesado sono - não permite que eu cumpra com minhas funções de pai. E o estranho é que eu quis tanto isso, quero dizer, quis tanto ser pai, e eu sabia que teria que ficar acordado e tudo. Mas o fato é que não consigo controlar meu sono. Mas não desisto, continuarei tentando.