quarta-feira, 12 de março de 2003

Conversas

Mulatinho e Andolini são dois irmãos gêmeos com rumos diferentes na vida. Às vezes, como hoje, encontram-se em um bar para conversar.

Mulatinho: Um chope, por favor

Andolini: Para mim, uma coca-cola. Sem gelo e com uma rodela de limão.

Mulatinho: Ainda não consigo me acostumar à idéia de que você se casou. Como vai esta nova vida?

Andolini: Para te dizer a verdade, nem eu me acostumo, mas acho que é melhor assim: o costume leva à acomodação. A vida vai seguindo sem acidentes, eu estou cada dia mais gordo, tenho saído pouco, mas tenho sempre ela ao meu lado. E isso é ótimo. E como vai a sua vida, meu irmão?

Mulatinho: Minha vida segue na eterna busca. Estou sempre por aí à noite, procurando, procurando, mas o fato é que não encontro nada. Não encontro a paz. Cheguei até a passar algum tempo com aquela garota, a Carla, mas não adiantou nada, ela era fria como um iceberg.

Andolini: Às vezes me pego pensando em como, no meio de tantas e tantas, eu fui achar logo a pessoa certa naquela página de encontros na internet. Seria o destino?

Mulatinho: Não, cara, nós já conversamos muito sobre isso. Você sabe que não existe destino. Existem pessoas por aí, tentando viver sua vida, com total livre-arbítrio. No seu caso, deu certo com ela, mas poderia ter dado certo com qualquer outra. Acho que a diferença entre nós seja que eu, inconscientemente, talvez não queira que dê certo com ninguém. Talvez a busca seja mais interessante que o final dela.

Andolini: Muitas vezes sinto falta desta sensação de estar buscando algo. Mas o final desta busca é legal, e não quer dizer que a vida acabe. Há outras buscas pela frente, e fazê-las acompanhado é gratificante.

Mulatinho: Talvez, mas, bem, olhe para mim. 21 anos, fumante, alcoólatra moderado, olhar distante. Difícil crer que alguém possa sentir-se atraído por isso aqui, não é?

Andolini: “Alcoólatra moderado”, gostei desta expressão. Mas por favor, não me venha com esta de coitadinho. Você é um cara talentoso, inteligente e interessante. Tem que para com essa coisa de “ah meu deus! E agora? O que vai ser de mim?” Eu me casei, mas continuo vivo. Você tem que continuar procurando, mesmo que não saiba exatamente o que. Tenho certeza que vai reconhecer quando achar. Além disso, alguém tem que cuidar do pai, não é? Lembra-se daquela música do Neil Young, “Old man, look at my life – twenty-four and there’s so much more”. E você tem 21 – mais ainda pela frente. Agora tenho que ir, mas continue escrevendo. Eu estou tentando não parar.

Mulatinho: Sim, tenho escrito bastante. É um vício, como o cigarro. Bom, irmão, em breve marcaremos outro encontro. Lembranças à sua mulher.