segunda-feira, 24 de fevereiro de 2003

O filme Retratos de uma Obsessão:

Revelação em uma hora

O que uma pessoa solitária e infeliz pode fazer sentir-se integrada ao mundo? É crime imaginar-se parte de uma família? É errado tentar viver uma vida à qual não se pertence? Estes são questionamentos levantados neste Retratos de uma obsessão (título Super Cine demais; prefiro o original, traduzido no título deste texto), encabeçado pelo novo bad boy do cinema: Robin Williams.

Sy Parrish (Williams, em atuação monofacial e com um adequado olhar distante) é funcionário de uma loja de fotografias que fica dentro de um enorme supermercado. Perfeccionista, faz questão de que as fotos tenham o máximo de resolução e nitidez. Mas Sy é uma pessoa solitária, sem família, sem relacionamentos, e que busca refúgio nas fotos que revela há vários anos para a família Yorkin, clientes habituais da loja. Sabe tudo sobre eles, seu endereço, suas viagens, o crescimento do filho, tudo é acompanhado obsessivamente por ele, que se imagina um membro da família, o tio Sy. Chega a ser incômoda a forma como ele aborda (em encontros falsamente casuais) os membros da família. E aqui vai um comentário pessoal: eu gosto de filmes que me incomodam.

A virada no filme acontece quando o paraíso imaginário de Sy se desfaz como um castelo de cartas: ele descobre que o pai da família tem um caso. Aí o filme fica muito tenso com Williams querendo vingar suas ilusões perdidas. Mas que o leitor não pense que aqui começará um banho de sangue, porque o objetivo do filme não é este. O que temos aqui é um suspense psicológico acentuado pela trilha sonora, que cria um clima nervoso, e pela boa atuação de Williams.

Aliás, é bom ver Robin Williams em um filme no qual não esteja tentando salvar o mundo. Este filme marca uma mudança em sua carreira (apesar de interpretar um assassino em seu filme anterior, Insônia, este filme pertencia muito mais a Al Pacino do que a ele), pois há muito tempo não o víamos em um filme com algumas cenas de nudez e sem mensagens altruístas. Enfim, como já mencionei antes, este é um filme incômodo.

(Publicado originalmente no ivox)